Foto: Marcos Corrêa/PR
O governo bate cabeça e demora a reagir de forma estruturada

O avanço do novo coronavírus pelos países nos tornou duplamente prisioneiros: de nós mesmos e do isolamento social. Para os que vivem bem sozinhos, o problema reside apenas na limitação do convívio social e dos trajetos disponíveis. Para os que vivem mal com eles mesmos, trata-se de um drama em dose dupla, pois não há para onde fugir.

A volta ao normal será afetada por novas tendências. Por exemplo, a adoção do trabalho remoto, já anunciada por grandes empresas, vai gerar dramáticas repercussões sociais, econômicas, familiares e psicológicas. Por um bom tempo, o convívio será mais seleto: apenas com familiares e amigos mais chegados. Os relacionamentos poderão, assim como as relações de trabalho, ser deslocados para as vizinhanças.

Viajaremos menos e precisaremos de menos escritórios. Os talentos estarão remotamente à disposição. Pagamentos em criptomoeda podem ganhar força à medida que o talento se torne mais desregionalizado. Mesmo com o fim da pandemia e a vacinação generalizada, os efeitos nas relações de trabalho serão duradouros, afetando profundamente as relações pessoais. Luc Ferry, em seu livro Diante da Crise (2010), defendeu a ideia de que a crise de 2008 era mais do que financeira: era também econômica. A Covid-19 vai mais além e provoca quatro crises em uma megacrise: financeira, econômica, social e sanitária.

Que impacto a pandemia terá sobre as relações humanas a partir do fato de as pessoas trabalharem mais em casa e circularem menos pelas ruas? Haverá aumento de violência doméstica e de surtos psicóticos? Perda na qualidade da educação das crianças? A criminalidade crescerá por causa do desemprego? A economia informal, que depende bastante da circulação de gente pelas cidades, terá de se reinventar? E setores formais que envolvem agrupamentos humanos, como empresas aéreas e de locação de carros, hotéis, restaurantes, cinemas, teatros?

Falta uma narrativa que dê a certeza de que temos um comando

Assim, o que poderia ser prosaicamente resolvido com distribuição de dinheiro hoje exige respostas que vão além das meramente estruturantes, dadas as circunstâncias inéditas dessa pandemia. Não é o que ocorre até agora. O governo bate cabeça e demora a reagir de forma organizada.

Para piorar, a pandemia ainda está sendo temperada por uma crise política, que teima em disputar espaço e atenção com a propagação do vírus. E tudo isso fica mais grave também porque carregamos uma pesada mochila de questões não resolvidas nos séculos passados.

No limite, o que vimos até agora foi pouco para o tamanho do problema. Há uma preocupação com a economia e com aspectos fiscais, mas não com os efeitos de todas essas crises combinadas, que é o que vem por aí. Claramente, falta ao governo tanto o entendimento sobre a dimensão das crises decorrentes da pandemia quanto uma narrativa que dê aos agentes econômicos a certeza de que temos um comando seguro.

Temos bons fundamentos para nos recuperar, mas a perda de tempo é um grave problema. A desorganização institucional e a falta de uma abordagem estruturante para os desafios que se apresentam vão cobrar um preço alto na retomada.

Publicado em VEJA de 3 de junho de 2020, edição nº 2689

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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.