Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A grande obra de Thomas Hobbes (1588-1679), Leviathan, foi publicada em 1651. Nela, o pensador inglês introduz a lógica do estado de natureza, uma condição hipotética em que não há poder comum para controlar os indivíduos, nem lei, nem a coação da lei. Nesse mundo hipotético, haveria uma tensão entre o desejo de preservar a liberdade, vantajosa no estado de natureza, e o medo da violência e da guerra, que, logicamente, o próprio estado de liberdade absoluta e de completa igualdade produz.

O homem civilizado queria sair dessa condição, mas, ao mesmo tempo, desejava preservar os direitos que lhe eram dados no estado de natureza, particularmente a liberdade para usar o próprio poder como quisesse. Segundo Hobbes, foi a transformação do estado de natureza em sociedade civil, expressa num Estado soberano por meio de contrato, que fez surgir neste mundo qualquer forma de sociedade.

Hoje, não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro, vivemos uma situação real de tensão entre duas concepções. Uma, mais preocupada com os impactos econômicos causados pela pandemia do novo coronavírus, que pode ser a lógica do estado de natureza, onde é cada um por si, todos voltam ao trabalho e retomam suas vidas; outra, que defende o isolamento social, que nos priva dos contatos presenciais e limita nossa liberdade de ir e vir, com o propósito maior de proteger uns aos outros e salvar vidas.

A diferença entre o modelo de Hobbes e o que temos hoje é que aquela situação por ele descrita era hipotética. Já o dilema que muitas nações enfrentam agora é real. Além disso, já temos um Estado constituído, ao contrário do estado de natureza hobbesiano. E como se não bastasse ter que enfrentar o medo da contaminação e todas as outras consequências nefastas da pandemia, a população assiste, atônita, às lideranças políticas se perderem em disputas políticas, contestando, sem conhecimento, conclusões científicas.

A lentidão com que tantas lideranças políticas têm enfrentado a pandemia vem acentuando críticas aos regimes democráticos. Sondagem realizada em fevereiro pelo Centro de Pesquisas Políticas (Cevipof), quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia definido essa epidemia como uma “emergência de saúde pública de âmbito internacional”, 41% dos franceses concordaram que “na democracia nada avança; seria melhor menos democracia e mais eficácia”.

Entre tantas responsabilidades e desafios que as autoridades enfrentam, está o de agir no sentido de preservar o estado democrático. Nessa linha, vale lembrar a frase de Winston Churchill: “A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais”.

Os políticos não estão preparados para enfrentar a pandemia. Colocam as disputas políticas acima das conclusões científicas.

Publicado na ISTOÉ

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Vice Presidente e sócio da Arko Advice desde 1999, Cristiano Noronha é Administrador de Empresas e Mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília. Foi professor de Ciência Política e Administração (UPIS e UNB). Cristiano regularmente profere palestras para investidores estrangeiros nos Estados Unidos e Europa. É editor-chefe do “Cenários Políticos”, “Política Brasileira”, newsletter semanal de análise política da Arko Advice, assinado por centenas de bancos, fundos de investimento e empresas nacionais e multinacionais.