Foto: Aílton de Freitas / Agência O Globo

A demissão de Luiz Henrique Mandetta (DEM) do Ministério da Saúde gerou lamentações e críticas por parte do sistema político. Alinhada com Mandetta e afinada com a política de isolamento social durante a pandemia, uma parte importante do Congresso e dos governadores se solidarizou com o agora ex-ministro. No curto prazo, devem colaborar com o novo ministro, o oncologista Nelson Teich, afinal de contas estados e municípios dependem financeiramente da União.

Uma incógnita é como ficará o relacionamento da bancada da saúde com Teich no Congresso. Vale lembrar que o presidente Jair Bolsonaro, durante o processo de montagem de seu governo, indicou nomes entre as chamadas bancadas temáticas. Um deles era justamente o de Mandetta. Segundo um influente ex-parlamentar ouvido pela Arko Advice, a troca de comando no Ministério da Saúde, contudo, não influirá negativamente na relação da bancada com Teich.

Mas há também sinais de que tensões podem seguir altas devido às divergências de Bolsonaro com o Congresso, os governadores e parte do Supremo Tribunal Federal (STF) em torno da questão do isolamento social. Além disso, sem Mandetta, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), se tornou alvo de Bolsonaro.

Na última quinta-feira (16), depois da demissão de Mandetta, Bolsonaro declarou à CNN que Maia estaria conspirando para tirá-lo do Palácio do Planalto. A resposta viria no dia seguinte, quando o Senado adiou, para esta segunda-feira (20), a votação da medida provisória que cria o Contrato Verde e Amarelo.

O recado enviado pelo Congresso ao Planalto – comprometendo a aprovação de uma matéria fundamental para a geração de empregos – evidencia o grau de tensão. Importante registrar que na coletiva de imprensa que deu após ser demitido, Mandetta fez referências ao ex-deputado federal José Carlos Aleluia (DEM-BA), próximo do prefeito de Salvador (BA) e presidente nacional do DEM, ACM Neto, e ao deputado Aberlardo Lupion (DEM-PR).

Por enquanto, os ministros do DEM, Onyx Lorenzoni (Cidadania) e Tereza Cristina (Agricultura), permanecem. Porém, o clima entre o partido e Bolsonaro já foi melhor. A cúpula do DEM, por exemplo, planeja colocar Mandetta num cargo nacional de destaque na legenda.

Paralelamente à cerimônia de posse de Nelson Teich, e com Bolsonaro defendendo a reabertura do comércio, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou a prorrogação da quarentena em seu estado até 10 de maio.

Além dos recados do Congresso e de Doria – que deve ser seguido pela maioria dos governadores –, o STF, dias antes da mudança de chefia no Ministério da Saúde, decidiu que governadores e prefeitos têm competência para adotar as medidas restritivas que julgarem necessárias.

Dono de extenso currículo e elogiado pela comunidade médica, o ministro Nelson Teich tem sérios desafios pela frente. O primeiro deles será encontrar um equilíbrio entre a manutenção do isolamento social, o relacionamento com os governadores – favoráveis ao isolamento social – e a pressão de Bolsonaro pela reabertura da economia.

Teich precisará ainda se familiarizar com o funcionamento do seu ministério e coordenar o gerenciamento do Sistema Único de Saúde (SUS). Em São Paulo, por exemplo, o Hospital Emílio Ribas está com sua capacidade esgotada. Cenário similar ocorre em hospitais no Amazonas, no Ceará e no Rio de Janeiro.

Podem surgir ainda eventuais atritos entre nomes que serão indicados pelo presidente e por Teich com os técnicos do Ministério da Saúde, sintonizados com a linha de Mandetta. Entretanto, os pedidos do ex-ministro para que sua equipe colabore com Teich, assim como a declaração deste descartando “mudanças bruscas”, podem facilitar um entendimento.

A troca no Ministério da Saúde também trará desafios para os governadores. Mesmo que Teich não possa suspender o isolamento social, orientações sugerindo mudanças nas medidas restritivas, combinadas a manifestações da base social bolsonarista nos estados nessa direção, poderão aumentar a pressão do setor privado sobre os governadores.

Fonte: Arko News