Foto: Fernando Souza/AFP

A crise gerada com a disseminação pelo mundo do novo coronavírus aumentou a importância da ala militar para o futuro do governo Jair Bolsonaro. Na semana passada, durante o episódio que quase culminou com a demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), os militares foram decisivos.

Por meio dos ministros Walter Braga Netto (Casa Civil), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Jorge Oliveira (Secretário-Geral da Presidência), além do ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, e do vice-presidente, Hamilton Mourão, Bolsonaro acabou convencido a recuar. Também coube aos militares a articulação da “trégua parcial” entre o presidente e Mandetta.

A força da ala militar vem crescendo a cada dia em função do isolamento político de Jair Bolsonaro. Aliás, vale recordar que Braga Netto, Ramos, Oliveira e Heleno despacham no Palácio do Planalto, estando, portanto, muito próximos do presidente. O estreitamento das relações entre Bolsonaro e o núcleo militar foi consumado em fevereiro, quando mudanças na equipe ministerial fizeram do Palácio do Planalto uma espécie de “Quartel-General”.

Sobre as Forças Armadas, registre-se que, na vida militar, onde predominam os princípios da hierarquia e da disciplina, há, grosso modo, três níveis de atuação: uns decidem, outros assessoram e um terceiro grupo executa. Essa forma de pensar, tipicamente castrense, é materializada no conceito de “Estado-Maior”, surgido na Prússia do século XIX.

O conceito de Estado-Maior foi uma solução ao desafio da complexidade da guerra em larga escala, típica da era industrial. Até hoje é usado, não só nas estruturas militares, mas também no meio empresarial, onde a guerra pela eficiência exige divisão de responsabilidades e trabalho coordenado. Compostos por assessores, os Estados-Maiores servem de espaço para discussão de alternativas que facilitarão a decisão. A maior parte da vida militar dos oficiais é feita no “ambiente de Estado-Maior”.

Quando se analisam as funções ocupadas pelos novos e antigos integrantes do Planalto, nota-se que há um “chefe de Estado-Maior” (general Mourão); um oficial de recursos humanos (general Ramos); um oficial de inteligência (general Heleno); um oficial de logística (Oliveira); e um oficial de comunicação social (general Rego Barros). Uns com mais poderes que outros, mas todos conscientes de que são “engrenagens” de uma máquina complexa.

Há ainda um oficial de operações (general Braga Netto) e um oficial de planejamento (almirante Flavio Rocha). Assim, configurou-se um “Estado-Maior” clássico, repleto de militares experientes e, sobretudo, com senso de hierarquia e lealdade ao presidente da República, conhecido de todos há muitos anos.

O fortalecimento da relação entre os militares e Bolsonaro, ganhando status de polo estratégico, ocorre em meio às dificuldades de relacionamento do Planalto com o Congresso Nacional, à aliança estabelecida entre os governadores e às derrotas que o Planalto vem registrando no âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF). Na semana passada, por exemplo, uma decisão provisória do ministro Alexandre de Moraes determinou que os governadores e prefeitos têm autonomia para estabelecer medidas restritivas durante a crise.

Embora os problemas de relacionamento com o Congresso, a aliança dos governadores e o STF, além da insatisfação de parcela da classe média (que tem realizado panelaços seguidos contra o presidente), mostrem um enfraquecimento de Bolsonaro, ele conseguirá resistir às pressões enquanto contar com o apoio dos militares. Tal respaldo é fundamental para reconstruir pontes com a chamada política tradicional e para enfrentar as demandas populares, decorrentes, primeiro, do avanço da pandemia, e, segundo, da cada vez mais provável recessão econômica.