Foto: Roosevelt Cassio/Reuters

O governo combate o coronavírus com espalhafato

Dois meses e pouco após o novo coronavírus começar a se alastrar pelo mundo, a epidemia está assumindo proporções dantescas. O presidente Donald Trump prevê duas semanas trágicas pela frente nos Estados Unidos. O mesmo pode acontecer no Brasil, onde os números crescem de forma alarmante. Assim, em abril deveremos estar no pico de contaminação da Covid-19. Estamos dentro de um imenso e tumultuado pesadelo real. A economia já parou, o desemprego tem aumentado, a arrecadação de impostos despencou e, para evitar uma hecatombe, o gasto público vai ser expandido. Uma nova agenda está posta: a sobrevivência das pessoas diante do vírus e do desastre econômico decorrente da epidemia.

Lamentavelmente, ao longo de março, prevaleceram no país os atritos entre autoridades de diversas esferas da União. Além do mais, demoramos a tomar medidas práticas. Na chegada ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, ainda em meados de março, não havia nenhuma espécie de controle sanitário para quem desembarcava. Passageiros eram amontoados nos ônibus, uma excelente oportunidade para a contaminação. Não tivemos um diálogo estabilizado e positivo entre a esfera federal e as esferas estaduais. Temos muitas iniciativas e poucas “acabativas”, pois a concretização das propostas ainda é lenta. Créditos anunciados, por exemplo, não chegam a quem necessita, O comitê de crise do governo federal começou a funcionar, mas sua atividade somente agora transparece com clareza para a população.

“Houve falhas na comunicação quanto ao enfrentamento do problema e não se criou uma narrativa de união nacional”

O governo não passou firmeza nem anunciou iniciativas que transmitam confiança à população, o que é essencial para manter a civilidade e o funcionamento das instituições. O navio-hospital da Marinha americana ancorado em Nova York tem apenas 1 200 leitos, mas sua imagem vale muito para a população, pois transmite confiança na atuação do governo. Não basta o governo atuar. Ele tem de mostrar que está atuando. Houve também falhas agudas na comunicação quanto ao enfrentamento do problema e não se criou — até agora — uma narrativa de união nacional em torno das soluções possíveis. A comunicação na esfera federal sobre o tema não é boa. E, até bem pouco, parecia motivada mais pelo enfrentamento político do que pela crise epidêmica. Apenas recentemente outros ministros — afora os titulares das pastas da Economia e da Saúde — passaram a se manifestar sobre o tema. Foi uma boa iniciativa. Mas precisamos mais. O governo tem um canhão de comunicação. Só não sabe usá-lo.

De certa maneira, o Brasil está indo para a guerra contra o coronavírus como a França e a Itália foram para a II Guerra Mundial: com muito espalhafato e pouca efetividade. Pagaremos um preço enorme pelo tempo perdido em desencontros, hesitações e disputas. Mas não é hora de lamentar o que passou. Além da necessária melhora no enfrentamento da crise, um comitê de pós-crise deve ser instalado para traçar as alternativas e os cenários futuros de saúde pública, desemprego, investimentos e segurança pública. É urgente começar a trabalhar hoje pelo amanhã, assim como estamos trabalhando — ainda que inconsistentemente — pelo agora.

Publicado em VEJA de 8 de abril de 2020

Artigo anteriorPesquisa sobre vacina para coronavírus avança
Próximo artigoBolsonaro pode determinar abertura do comércio na próxima semana
Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.