Foto: Marcos Corrêa/PR

Estão ocorrendo movimentos na opinião pública que precisam ser vistos com atenção pelo Palácio do Planalto. Embora cerca de 1/3 do eleitorado siga fiel ao presidente Jair Bolsonaro, está em curso a formação de ondas de insatisfação que podem ameaçar o presidente mesmo após o fim da pandemia do novo coronavírus.

A primeira fase dessa onda se concentra na classe média dos grandes centros urbanos. Nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, que vêm apresentando o maior número de contaminados e mortos, os panelaços têm sido uma constante nos últimos dias. Mesmo que a esquerda explore politicamente tais protestos, essa mobilização tem se mostrado mais espontânea e difusa do que partidária. Ao que tudo indica, uma parcela da classe média desembarcou do bolsonarismo.

Na última pesquisa Datafolha (18 a 20/03), por exemplo, 51% da população de maior renda desaprovou o desempenho de Bolsonaro na crise da Covid-19. O percentual é superior à média de desaprovação de Bolsonaro (33%). E bem superior à aprovação de seu desempenho (35%).

A segunda fase dessa onda de insatisfação ainda está sendo gestada. Como o coronavírus chegou apenas parcialmente às periferias, a popularidade de Bolsonaro foi apenas parcialmente atingida junto a esse público. Quando a pandemia começar a avançar nessas comunidades, a tendência é que a desaprovação ao presidente cresça nas classes D e E. Além disso, há o agravante de que o impacto da recessão econômica será mais intenso nessa fatia da sociedade.

A partir de abril, a combinação do coronavírus com uma possível sobrecarga no atendimento dos postos do Sistema Único de Saúde (SUS) – em meio a um cenário em que trabalhadores autônomos e informais estarão com sua renda mensal reduzida – tem tudo para afetar a popularidade do presidente.

O que ajuda Bolsonaro neste momento é que, com a população confinada em suas residências, é remota a possibilidade de protestos nas ruas. Porém, conforme o isolamento social for sendo flexibilizado, caso o coronavírus abale o sistema de saúde, gerando mais contaminação e mortes, e a recessão econômica se acentue, há o risco de o presidente ser alvo de protestos.

Apesar do cenário ruim no curto e no médio prazos, joga a favor de Bolsonaro o fato de, por enquanto, essa onda de insatisfação, conforme já dito, ser difusa. Além disso, nenhuma liderança até agora capitalizou politicamente esse movimento.

Mesmo perdendo capital político, é improvável que a popularidade do presidente fique abaixo dos 20%. Manter essa fatia do eleitorado ao seu lado é fundamental para que ele possa enfrentar o novo ambiente político. Não à toa Bolsonaro tem feito pronunciamentos em cadeia nacional de rádio e TV e proposto narrativas como a flexibilização do isolamento social. Ele quer manter sua tropa unida.

Dentro dessa estratégia estava, até a semana passada, a circulação nas redes sociais de prints e vídeos da campanha “O Brasil não pode parar”. A iniciativa visava criar um movimento para convencer parte da população, sobretudo os setores mais vulneráveis economicamente, a retomar sua rotina. Porém, após a Justiça Federal proibir a veiculação da propaganda, a Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República apagou os posts da campanha em suas redes sociais. Apesar do revés judicial, a campanha circulou nas redes durante três dias, tempo suficiente para mobilizar os setores mais conservadores do bolsonarismo.

A campanha, que contou com o respaldo indireto dos pequenos e médios empresários, via Câmaras de Dirigentes Lojistas (CDLs), e que buscava pressionar governadores e prefeitos a flexibilizarem o isolamento social, tinha um alto grau de risco político. Isso porque a grande imprensa – com o respaldo científico de parte significativa dos especialistas em saúde e tendo como argumento o alto número de mortos na Itália – defende neste momento a necessidade de isolamento social como forma de combate ao coronavírus.

A opinião pública se alinha às medidas restritivas devido ao pânico social gerado pela covid-19 (segundo o Datafolha divulgada na semana passada, mais de 70% apoiam o isolamento social). Assim, o risco da campanha a favor da flexibilização do isolamento social fracassar é alto. Mesmo que mobilize os setores mais conservadores do bolsonarismo, podem surgir, como efeito colateral, manifestações ainda mais intensas contra o presidente, por meio de panelaços, durante a vigência do isolamento social.