Foto: LEAH MILLIS / AFP

O presidente americano Donald Trump fez ontem (5) o discurso anual do Estado da União no Congresso Americano. Nesse ano e, particularmente, nessa semana, o discurso assume uma importância especial. Segunda-feira (3), a corrida eleitoral de 2020 oficialmente começou com o primeiro processo de primárias democratas, o caucus de Iowa. Após confusões e atrasos por conta de problemas tecnológicos, a vantagem em Iowa ficou com o prefeito de South Bend, Pete Buttigieg. Além disso, o processo de impeachment por abuso de poder e obstrução de Trump foi votado ontem, depois do discurso ser feito, e derrotado no Senado americano.

O discurso do republicano durou mais de uma hora e foi centrado nos números positivos da sua administração e na narrativa de retorno dos EUA a uma posição de prestígio e projeção de poder perante o mundo. Nesse bojo, críticas aos democratas não foram poupadas. Do lado democrata, a rivalização é recíproca. A líder democrata, Nancy Pelosi, rasgou a cópia do discurso de Trump, após ele não ter a cumprimentado no início da cerimônia. Essas atitudes pouco amistosas têm repercussão positiva para os partidos em suas respectivas bases, marcando a continuação e possivelmente aumento da postura ofensiva e polarizada.

No seu discurso, Trump não mencionou em nenhum momento o processo de impeachment. Defendeu novamente dois temas que são caros a sua administração: a política migratória restritiva e a saúde privada. Capitalizou resultados positivos como vitórias de sua administração e, como de costume, Trump demonstrou a sua grande capacidade de adequar situações à narrativas que tem aderência em seu eleitorado.

Com os dados econômicos favoráveis e baixo desemprego, Trump tem uma situação doméstica estável. A política externa também tem tido resultados que apoiam a orientação isolacionista adotada. O assassinato do líder do exército iraniano, Qasem Sulemani, no início do ano foi um grande marco para o governo, tanto pela execução de uma figura importante de um regime inimigo, quanto por ter resultado na retirada de tropas americanas no Iraque. Outro ponto fundamental foi o acordo que colocou fim na guerra econômica com a China, que também foi explorado no discurso.

Ainda na seara de política externa, Trump promoveu dois momentos bastante midiáticos. O primeiro foi a promoção do reencontro ao vivo de um militar americano que estava alocado no Afeganistão com sua esposa e filhas. Esse momento teve um forte apelo emocional e reforçou a defesa de retirada das tropas americanas de alguns conflitos. O outro momento foi o convite do autoproclamado presidente interino da Venezuela, Juan Guiadó, marcando o apoio americano a oposição ao governo de Maduro na Venezuela.

Todos esses fatores dão indícios do que está por vir na corrida pela Casa Branca. Considerando que os republicanos irão disputar a reeleição, a postura do atual presidente e provável candidato poderia assumir um tom menos agressivo em relação aos opositores. Pelo perfil de Donald Trump um tom conciliador seria muito improvável, porém poderia calibrar o seu discurso para uma abordagem mais propositiva, visto que por ser o último ano da sua administração, o republicano não é mais um outsider. No entanto, a mensagem que fica nesse primeiro discurso é que o tom polarizado presente durante a administração Trump deve ter continuação e se aprofundar a partir de julho, com a decisão do(a) candidato(a) democrata.