Foto: Divulgação/Cotação

Na última sexta-feira conversei sobre o Brasil com alguns investidores de Nova York. A ideia original de um deles, que agendou a conversa, era debater os principais pontos que geravam receio em investidores que não estavam habituados a operar em nosso país. Para começar, ele pediu que  cada um dos presentes relatasse qual  o principal problema que enxergavam no país. Eu deveria responder, colocando o que está sendo feito (ou não) para resolver os problemas apontados.

Pedi um tempo para que, antes que começassem, eu pudesse passar alguns números positivos, de forma a criar um repertório comum.

Números que todos conheciam bem, mas para ilustrar um pouco mais nossa sessão de brainstorming. Em 2020, a estimativa do FMI é de um crescimento de 2,2%. O governo brasileiro possui uma expectativa um pouco maior, perto dos 2,4%. A taxa de juros em 2020 deverá ficar em 4,50% e a inflação em 3,60%. O risco-pais está baixo (100 pontos) e nossas reservas permanecem perto de 400 bilhões de dólares.

Debatemos por um bom tempo os erros políticos do governo, tanto de narrativa como de decisões. Isso sempre tem um peso nas análises de tomadas de decisão, mas não é necessariamente determinante. A política ambiental ganhou uma ênfase maior, já que isso está sendo tratado como um grave risco operacional. Naturalmente, a narrativa equivocada piora nossa reputação internacional. Como muitos fundos estão cada vez mais amarrados em compliances reputacionais, a política ambiental ganhou uma maior relevância na análise de riscos.

Discutimos um pouco sobre a saída de dólares de investidores estrangeiros. Um deles mencionou durante a ligação que estava com a matéria do Financial Times aberta, onde se falava sobre a saída de capital, apesar da boa performance da Ibovespa. A conversa seguiu e eu trouxe um dado recente sobre a queda no percentual de “float” dos estrangeiros e aumento no volume de capital desses mesmos estrangeiros na bolsa.

Em janeiro de 2018, a volume estrangeiro na bolsa era um pouco acima de 1 trilhão de reais. E participação na bolsa (percentual do float) era de aproximadamente 63%. Em setembro de 2019, o volume era próximo de 1 trilhão e 400 bilhões de reais, e o percentual de float era de aproximadamente 55% (fonte: ri.b3.com.br). A alta valorização da bolsa mostra que o estrangeiro, numericamente, realmente tirou um número recorde de capital do Brasil. Porém, por outro lado, a valor de suas participações se expandiram, fazendo com que o volume atual de  capital estrangeiro no Brasil seja maior do que em qualquer outro ano.

No final do ano faz sentido o trader esvaziar suas carteiras para poder realizar lucros e garantir seu bônus de fim de ano. No entanto, o fato do volume estar maior, não quer dizer que não existam dificuldades e problemas sérios que impedem um fluxo maior de investimentos (mesmo com o pais em quarto no ranking de investimentos externos diretos).

Os principais problemas levantados foram segurança jurídica e desinformação. Existe muita incerteza no Brasil em relação a manutenção de regras, respeito às leis e alto nível de poder de interpretação a juízes. Dentro dessa categoria, a legislação trabalhista destrói o ímpeto de muitos investirem no pais. HSBC e CitiBank deixaram o Brasil, entre outras razoes, pelo volume inacreditável de processos trabalhistas. A complexidade do sistema tributário também foi apontado, dentro dessa categoria, como um inibidor profundo contra o investimento no pais.

A política também foi mencionada e rendeu longos minutos de conversa. Segundo um deles, quanto mais um investidor conhece e se sente confortável em investir no Brasil, menor impacto a política tem no processo de tomada de decisões. Por outro lado, o investidor que está observando o Brasil com pouca informação na mão, tende a se assustar e temer contaminações de narrativas erráticas de uma área para outra. A política ambiental, como citada anteriormente, e um exemplo de como investimentos podem ser inibidos por conta de certas políticas publicas. Um estrategista de um fundo de 25 bi de dólares disse: “Thiago, quem conhece o Brasil ignora, fica chocado, ri, chora, mas vai em frente mesmo assim. Quem não tem experiencia no Brasil vê uma situação absurda e logo imagina que aquilo poderá se replicar em outras áreas do governo, ai se afasta”.

Praticamente todos citaram que o alto desemprego representa um fator importante em suas análises. O desemprego por volta de 12% indica (para alguns na mesa) que o crescimento sustentável ficar limitado, pois o mercado consumidor fica cada vez mais enfraquecido. Esse ponto impacta o investidor de curto prazo, pois há incerteza em relação ao consumo e o de longo prazo por conta da expectativa de que a situação seja resolvida. Dentro da categoria “desemprego”, foi mencionado também que a falta de mão de obra qualificada representa um problema para solucionar a questão do desemprego. Existem vagas de trabalho, mas uma imensa dificuldade em preenche-las. Para um pais que ignorou solenemente a educação de qualidade há décadas, isso traz um preço.

Burocracia também é sempre lembrada nesse tipo de conversa. A dificuldade em fechar empresas faz um investidor pensar várias vezes se vale a pena ou não financiar um projeto especifico. Por outro lado, os latino-americanos que geralmente cuidam das carteiras ligadas a esses países, já colocam esse preço em cada operação. O lado ruim, é que a vantagem deve ser cada vez mais explicita para se aproveitar.

Existem também razoes mais simples que explicam o porquê o Brasil não recebe fluxos ainda maiores de investimentos. Os principais investidores estrangeiros no Brasil são dos EUA. Isso faz com que concorramos contra o próprio Estados Unidos. Quando aumenta os juros nos EUA, esse investidor vende no Brasil e investe domesticamente. Existem sempre poucas razoes para não vender Brasil. Competimos contra o próprio crescimento americano, que está vendo seu pais em um crescimento sustentável há anos. Já o investidor menos cosmopolita, ainda vê o Brasil como uma aventura. Além disso, a S&P 500 performou muito bem no último ano, fazendo com que valesse a pena optar em investir lá.

Um outro ponto importante é que o Brasil precisa de águas mornas para navegar bem no mundo do investimento externo. Quando o mundo está “overperforming”, o investidor olha para lugares onde o risco intrínseco e menor e as oportunidades são tão boas quanto. Quando o mundo está “underperforming”, ele prefere ir para o básico do básico. Isso faz com que o Brasil precise se provar dez vezes e cumprir com as narrativas de disciplina econômica e cronogramas.

A conversa terminou com alguns riscos mapeados. No fundo, se trata de sentimentos pessoais de cada investidor. Ele não olha para uma coisa especifica e cada indicador (positivo ou negativo) traz um peso diferente para cada um. Para uns, política não importa. Para outros, suas convicções políticas pessoais interferem em suas análises sobre determinado pais. Uns arriscam mais e outros menos. Não existe uma solução mágica para que o Brasil seja visto como um lugar confiável e fácil. Para muitos, o Brasil e um lugar lucrativo e seguro. Uma ilha na região e com um Banco Central que transmite confiança. Para muitos outros, o Brasil ainda e confuso, enrolador, requer tempo para aprender e produz ruídos demais.

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Thiago de Aragão e sociólogo, Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Johns Hopkins, Pesquisador Associado do Instituto Frances de Relações Internacionais e Estratégicas e Diretor de Estrategia da Arko Advice. Nos últimos anos, Thiago liderou projetos estratégicos para vários clientes nacionais e internacionais. Ao longo dos últimos anos, palestrou em vários países, por meio de convites de governos, universidades e fóruns. Recebeu em 2013 a medalha de honra ao mérito do Governador-Geral do Canada e em 2016 foi escolhido como Jovem Liderança do Ano pelo Governo da Franca.