AP Photo/F. Mori
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Criada em 1948, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) foi montada dentro de uma lógica americana de cooperação e equiparação de padrões de “boas condutas” econômicas entre seus membros para promover a coordenação de políticas econômicas entre diversas economias “livres” no mundo.

A OCDE possui 36 membros e está prestes a admitir a Costa Rica como seu 37° membro. De certa forma, ela representa uma vitória da coordenação e da equiparação de práticas econômicas entre os seus países membros. Trata-se de um produto clássico e até caricato do que a globalização pode gerar no âmbito da economia. Ao contrário da ONU, que organiza e media uma coleção de “comportamentos” autônomos — e muitas vezes antagônicos –, a OCDE busca a padronização. Essa padronização faz com que o mercado financeiro aprecie os mercados-membros e use essa lista de integrantes como uma lista de países detentores de um selo de confiança diferenciado. Na prática, a OCDE se afirma como uma organização integradora de valores internacionais com muito mais eficácia do que a ONU.

O Brasil sempre buscou fazer parte de grupos e clubes que legitimassem sua importância global. Somos um gigante sentado na mesa perto da cozinha, enquanto a festa ocorre a alguma distância. O Conselho de Segurança da ONU, prometido desde o início da 2ª Guerra Mundial, é um sonho contínuo e sempre longínquo que faz o Brasil devanear com esse carimbo de pertencimento a um clube de tomadores de decisão e de grandes formadores de opinião globais.

A partir do momento em que o governo cria uma narrativa demonizada – de organizações internacionais reunidas ao redor de um termo criado às pressas, o globalismo – o país se coloca em uma postura de independência total, não apenas no âmbito das tomadas de decisão próprias (que aliás sempre foi assegurada pela soberania nacional), mas também de rejeição a tudo que possa indicar instruções que venham de fora para dentro. Na realidade, a narrativa de que nossos equívocos nasceram de uma conjunção de decisões internas equivocadas e subserviência a instruções vindas de fora faz com que a expectativa de um comportamento 100% autônomo aumente.

Ouvimos diversas vezes que a ONU e seus órgãos são fomentadores de uma imposição globalista, culturalmente marxista e que esmaga a possibilidade de o Brasil brilhar por si só. Sem entrar no mérito dessa afirmação, devemos sempre nos lembrar que nada nos é imposto pela ONU ou pelo Acordo de Paris. Tudo o que se acorda ali são intenções, não obrigações. A soberania é absoluta, pois não existem regras a seguir, apenas diálogos a serem desenvolvidos. No entanto, quando vemos o nosso desejo supremo de ingresso na OCDE (e eu sou um firme defensor desse ingresso ), não podemos nos furtar de pensar que não existiria nada mais “globalista” do que uma organização que definisse comportamentos para seus membros. Ressalto aqui que não acho isso ruim. Nosso ingresso na OCDE agregaria qualidade à nossa imagem e nos ajudaria na construção de políticas públicas e econômicas no país. Talvez a importância dada a esse ingresso esteja inflada, como se fosse um passaporte para um futuro que depende muito mais de nós do que de organizações das quais venhamos a fazer parte.

O ponto importante é que não existe uma narrativa globalista, pois o volume de globalismo (se é que esse termo faça algum sentido) é definido pelo receptor e não pelo ambiente que o cerca. O desejo de ingressar na OCDE reafirma que não podemos fugir da globalização, da internacionalização e da busca por padronizações globais. Isso não é pecado nem fonte de opressão. Muito pelo contrário, trata-se de modernização, de adaptação a boas práticas seguidas por países que tem sim muito a ensinar ao Brasil.

Não há uma opressão marxista imposta culturalmente contra o Brasil. O que há é o deslumbre e a ingenuidade de achar que toda tentativa de convencimento contrária vindo de outros deve necessariamente ser aceita. Nossa entrada na OCDE deverá acontecer em alguns bons anos. Surpresa? Nenhuma! Temos além de Argentina e Romênia, Bulgária, Croácia e Peru na fila a nossa frente. Vai ser bom quando ocorrer? Sim. Vai resolver problemas nossos? De forma alguma. Entretanto a simples vontade, busca e tentativa de entrar na OCDE mostra que este é um desejo correto, positivo, e que quando chegarmos lá, estaremos inseridos em uma organização global com muito mais poder de nos influenciar externamente do que qualquer outra organização internacional. E isso vale a pena.

Fonte: Gazeta do Povo

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Thiago de Aragão e sociólogo, Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Johns Hopkins, Pesquisador Associado do Instituto Frances de Relações Internacionais e Estratégicas e Diretor de Estrategia da Arko Advice. Nos últimos anos, Thiago liderou projetos estratégicos para vários clientes nacionais e internacionais. Ao longo dos últimos anos, palestrou em vários países, por meio de convites de governos, universidades e fóruns. Recebeu em 2013 a medalha de honra ao mérito do Governador-Geral do Canada e em 2016 foi escolhido como Jovem Liderança do Ano pelo Governo da Franca.