Divulgação / PSL
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A relação entre o presidente Jair Bolsonaro e o PSL nunca foi das melhores. Desde o tempo das eleições. Bolsonaro precisava de um partido para disputar a Presidência e escolheu o PSL, que, por sua vez, acolheu Bolsonaro como uma aposta que poderia dar certo. Ao filiar-se ao partido, em março de 2018, ele já tinha entre 15% e 20% das intenções de voto.

Foi, portanto, um casamento de conveniências. Bolsonaro precisava de uma sigla que não estivesse envolvida na Operação Lava-Jato e o PSL, até então um partido nanico, via em Bolsonaro uma excelente oportunidade para eleger, além do presidente, uma bancada forte na Câmara e no Senado. E, claro, conquistar uma fatia relevante do Fundo Partidário. Na eleição do próximo ano, a legenda terá R$ 359 milhões, juntando os fundos Partidário e Eleitoral.

A gerência desses recursos e as negociações em torno das eleições de 2020 são as principais razões dos atritos. Esse casamento de conveniência não está resistindo ao temperamento do presidente e ao do líder e “dono” do PSL, Luciano Bivar.

Nesse cenário, é possível que Bolsonaro e aliados trabalhem internamente para obterem mais poder no comando do PSL de Bivar. Um exemplo disso foi uma carta divulgada por um grupo de deputados da legenda em que cobram “novas práticas” do comando nacional do PSL.

Como consequência dessa disputa interna, poderá ocorrer um racha no partido, o que levaria os deputados e senadores mais fiéis a Bolsonaro a seguir outro caminho. Esse possível movimento esvaziaria a sigla, transformando-a novamente em uma legenda com representação tímida no Congresso. Porém, como na carta divulgada hoje, o grupo de deputados (19 dos 53 deputados) argumenta que “não perdeu a esperança na abertura de um canal de diálogo”. Ou seja, um entendimento não deve ser descartado.

Isso pode ocorrer a partir da designação de líderes ligados a Bolsonaro para cargos estratégicos na máquina partidária. Aliás, Bolsonaro emitiu sinais de que esse diálogo poderá acontecer, ao comparar a crise no PSL “a uma briga de marido e mulher”. Também afirmou que, “por enquanto”, segue no partido.

Considerando a tensão no relacionamento entre ambos, o que poderá acontecer daqui para a frente?

  1. A Reforma Previdenciária fica ameaçada? A princípio, não. O governo tem obtido apoios por meio de operações que misturam “atacado” e “varejo” político. O PSL é apenas mais um problema que o governo enfrenta para finalizar a reforma. Seria menos ruim que o rompimento tivesse acontecido depois? Sim. No entanto, a crise não deve impedir a votação e a aprovação da reforma. Além disso, a Previdência teve 56 votos no primeiro turno e o PSL tem apenas três senadores. Um deles é Flávio Bolsonaro, que não votará em hipótese alguma contra o governo.
  2. O rompimento enfraquece a base governista? Sim. Obviamente, o afastamento pode levar alguns parlamentares do PSL a adotar postura independente da agenda presidencial.
  3. Tal enfraquecimento ameaça a agenda de reformas? No curto prazo, não. A aprovação de reformas depende mais da convergência das agendas entre a maioria do Congresso e o governo do que do relacionamento entre governo e partidos.
  4. Existe possibilidade de reconciliação? Sim. O afastamento pode não ser conveniente para ambos os lados. Assim, é possível que – adiante – conversas sejam restabelecidas. Mas uma reconciliação somente deverá acontecer se a atual liderança do PSL der mais espaço no partido a bolsonaristas.

Escrito por Cristiano Noronha, Murillo de Aragão e Carlos Borenstein