Não houve sequer uma reunião formal no Parlamento para debatê-la, mas a Nova Previdência já sofreu seguidos reveses. Ou Bolsonaro aprende a negociar com o Parlamento, ou seu Governo pode ficar à deriva

                                                                                                                                                            Itamar Garcez *

 

A prisão do ex-presidente Michel Temer é mais um, mas não o último obstáculo no caminho da Nova Previdência do capitão-mor Jair Bolsonaro. Pode não ter sido engendrada com este fito, mas o sufeta Marcelo Bretas ajudou a dificultar inda mais a aprovação.

Reformar a previdência é das tarefas mais difíceis para qualquer mandatário. Mexe com um fetiche, o direito ao derradeiro ócio.

Quem tentou modificar as regras para aposentadoria, como FHC e Lula, teve que negociar muito e ceder mais ainda. Temer, igualmente hábil negociador, só não teve sucesso por conta do magarefe Joesley Batista e da inusitada atuação do procurador Rodrigo Janot.

O Governo terá que arregimentar, pelo menos, 308 apoios de deputados federais e 49 de senadores. Além disso, o desgastante voto de cada um diante dos eleitores de todo o País terá que ser repetido duas vezes.

Embora, até aqui, a reforma não tenha gerado sequer uma reunião formal de debates parlamentares, o inventário de reveses já é extenso.

Paulo Guedes. Aplaudido por economistas e outros entusiastas da reforma, o ministro da Economia não conhece os meandros do Parlamento.

Encantou-se com a possibilidade da eleição de Renan Calheiros à Presidência do Senado. Aposta errada. Agora, pode ver o alagoano aliar-se ao PT em oposição à reforma.

Insiste num Plano B antes mesmo dos parlamentares digerirem a radical mudança que propõe. O jogo de Guedes pode dar certo no mundo dos negócios, mas não funciona na política.

Lei anticrime. Bandeira que o presidente carrega com muito mais entusiasmo, a apreciação simultânea de dois projetos de tamanho impacto (lei anticrime e previdência) é muito difícil.

Presidente da Câmara, o deputado Rodrigo Maia sabe disso e deixou o pacote de Moro na quarentena. A ansiedade de Moro ou a prepotência de Maia, ou ambas, geraram faíscas, turvando mais um pouco o ambiente nebuloso que envolve a nova legislatura.

Prisão de Temer. Para votar, os parlamentares precisam estar soltos. Caso a prisão do ex-presidente implique nova investida da Lava-Jato sobre o Congresso Nacional – noves fora, o Supremo hostil-, a reforma fica para o segundo plano e pode virar moeda para barganha.

O Congresso Nacional é como um navio em alto-mar. Quando avistam mar agitado, os marinheiros deixam de lado suas tarefas para cuidar do mais importante: sobreviver.

Militares. Nicho mais poderoso do Governo, os militares conseguiram que o capitão-mor assinasse uma proposta bastante conveniente à tropa. Perdem menos que seus congêneres civis.

O “sistema de proteção social das Forças Armadas”, que os milicos relutam em chamar pelo nome correto, aposentadoria, abre brecha para que categorias tão ou mais poderosas – como juízes e procuradores – levantem o dedo e gritem: “Opa! Eu também quero”.

Base desaliada. Neste ponto, Bolsonaro se equipara a Fernando Collor, que não se preocupou em montar uma base parlamentar e acabou defenestrado do cargo. Lula e FHC, com doses cavalares de fisiologismo, não descuidaram deste apoio e, raridade, completaram dois mandatos.

Para começar, o Governo não tem lideranças políticas fortes e respeitadas, como as tinham FHC, Lula e Temer. Por seu turno, Bolsonaro parece pouco disposto ao indispensável salamaleque presidencial. Gosta mesmo é de cerimônias militares e viagens internacionais.

Porém, cortejar parlamentares em busca de votos não é atribuição supérflua ou delegável. É arte e manha incontornáveis.

Além disso, o presidente acha que consegue governar pelo Twitter, onde só ouve aplausos. Não consegue.

Seu teatro, que lotou com 57,7 milhões (39,23% do eleitorado) de apoiadores em novembro passado, está cada vez mais vazio, como mostrou o Ibope. Queda acentuada de 15 pontos em dois meses.

E este, talvez, seja o principal percalço. O próprio presidente e sua incapacidade de governar.

Capitão-mor. Como já registrado mais de uma vez aqui na Arko News, Bolsonaro preparou-se para vencer as eleições, não para governar. O capitão-mor gosta mesmo é de brigar com petistas, detonar ambientalistas, envolver-se em escaramuças com pederastas, cortejar o presidente de cabelo engomado do Norte.

Previdência não é tema que lhe interesse. Já disse que, se pudesse, deixaria tudo como está. No passado, votou contra as mudanças previdenciárias.

Não há nele nem a convicção tampouco o engajamento de seus antecessores. Suas falas demonstram que não estudou o tema. Assume a bandeira por instinto de sobrevivência.

Mas segue o mote da campanha eleitoral, deixando o trabalho pesado para Paulo Guedes. Ocorre que os parlamentares não votam por inércia, nem gostam de intermediários.

Vão exigir, um a um, que o presidente faça a boca de urna nos salões Verde e Azul do Parlamento. Sem isto, os votos não virão.

As armadilhas à Nova Previdência não param por aqui. Há as corporações que habitam os principais salões do poder, há os filhos boquirrotos do presidente, há os quintas-colunas da base, há o múltiplo choque institucional, há a oposição ferida, mas não morta.

Se quiser mesmo aprovar sua Nova Previdência, questão de vida ou morte para seu governo, Bolsonaro terá que aprender a negociar com o Parlamento. Sem isto, o cenário que se avizinha é o de uma vitória desidratada ou, até mesmo, a derrota aniquiladora.

* Itamar Garcez é jornalista