A pinguela se fortaleceu, assumiu ares de ponte bem construída e passou a garantir o futuro próximo razoavelmente tranquilo. As vitórias do governo na Câmara e no Senado concederam novo oxigênio ao governo Temer. É um recomeço importante. Ele ganhou espaço e oportunidade para fazer correções na composição da equipe e pressionar por uma conclusão rápida na votação da reforma da previdência. A transição está protegida.

Pouca gente percebe que o sistema político brasileiro, depois da Constituição de 88, ganhou fortes características parlamentaristas. Não é por acaso que dois presidentes sofreram impeachment nos últimos 29 anos. O ocupante do espaçoso e confortável gabinete do terceiro andar do Palácio do Planalto precisa ter maioria nas duas casas no Congresso. Se não tiver, não governa. E se partir para o confronto, usualmente, perde.

O deputado Antônio Imbassahy, do PSDB-BA, passou a comandar a Secretaria de Governo. É o órgão encarregado de negociar diretamente com os parlamentares. O mapa da mina está ali. Lentamente vai se desenhando a aliança PMDB/PSDB que pretende ter hegemonia nos próximos anos. E eleger o presidente da República em 2018.

O presidente Temer demonstrou, de maneira inequívoca, que conhece os caminhos no Congresso brasileiro. Seu governo tomou forma no início de 2017. Agora, com inflação e juros com viés de baixa, ele poderá apresentar suas metas.

Acabou o período em que as flores do recesso parlamentar atormentaram os brasileiros. A expressão foi cunhada pelo saudoso Thales Ramalho que, secretário-geral do PMDB, foi o interlocutor predileto de Tancredo Neves e Ulysses Guimarães.

Ele percebeu que na aridez do noticiário do primeiro mês do ano a imprensa tende a agasalhar informações especulativas e assuntos menores. O boato é livre. Trata-se momento ideal para a propagação da pós-verdade.

O ano de 2017 se iniciou com a descoberta de barbáries nas penitenciárias de Manaus e Natal. As facções rivais estavam se matando para garantir o controle dentro da prisão. Poucos perceberam que não ocorreram fugas nas duas cadeias durante os conflitos.

O problema era interno e, naturalmente, envolvia as respectivas direções dos presídios que vendem facilidades e criam dificuldades. O governo reavivou um programa de assistência ao prisioneiro. Agora mudou o nome do Ministério da Justiça para a ele acrescentar a expressão segurança pública.

O acidente que vitimou o ministro Teori Zavascki teve vários desdobramentos. Um deles foi acabar com as matérias sobre os problemas das penitenciárias. A crise foi extinta de um dia para o outro. Os jornais passaram a apostar nos possíveis sucessores do falecido jurista. Essas substituições nunca são simples, rápidas ou fáceis. Há um engarrafamento de pedidos, solicitações, pressões para que resulte em nome palatável a todos as tendências.

Não é fácil chegar ao Supremo Tribunal Federal. Não se trata de uma promoção por mérito, mas de escolha solitária e majestática do presidente da República. A discussão sobre o novo relator da Lava-Jato também foi e voltou e ficou no mesmo ponto.

O assunto foi decidido por sorteio entre os membros da segunda turma, já com a participação do ministro Edson Fachin, afinal escolhido. A ministra Carmen Lúcia, presidente do STF, trabalhou com moderação. O resultado é produto do consenso entre os ministros.

A sucessão na Câmara e no Senado teve fotografias diferentes. O Senador Eunício Oliveira foi eleito sem maiores emoções. Rodrigo Maia teve que procurar os eleitores. Trabalhou bem. Conseguiu 293 votos. Ganhou no primeiro turno e revelou a força do governo Temer dentro do Congresso. Jovair Arantes, do PTB de Goiás, foi o principal opositor. Os outros concorreram para fazer notícia, sair no jornal e dar entrevistas. Estratégia de visibilidade.

A prisão de Eike Batista provocou especulações. É difícil ser imparcial diante do filho do professor Eliezer. Ele é milionário desde pequeno, fez seu dinheiro crescer de maneira exponencial, desfrutou do bom e do melhor nos governos Lula e Dilma e ainda casou com a Luma de Oliveira. Indesculpável. Perdeu quase tudo, mas pagou suas dívidas.

Tornou-se sócio minoritário de suas antigas empresas. Ainda tem dinheiro em uma ou outra gaveta. Não lhe tomaram tudo. A prisão do empresário movimenta o noticiário e o pessoal esquece que há duas semanas reclamava da situação dos presídios.

Nos últimos dias, ao contrário, especialistas entenderam ser positivo que Eike, careca, esteja numa cela dormindo em beliche de concreto, sem privada, tendo um cano como chuveiro e tomando banho de sol uma vez por dia. Felizmente, o recesso acabou. E o governo mostra que pretende sair do lugar.

Publicado no Correio Braziliense em 04/02/2017