A diplomacia do Brasil já fez chegar a Donald Trump a informação preciosa: a cada quatro dólares investidos por norte-americanos no Brasil, os brasileiros colocam um nos Estados Unidos. As consequências dessa equação política é que empresas deste país pobre, marginal e terceiro-mundista sustentam oitenta mil empregos na terra do Tio Sam.

É diferente, portanto, do México que recebe de braços abertos as montadoras de automóveis. Elas produzem no outro lado da fronteira para o mercado vizinho, pagam impostos menores e empregam mão de obra barata.

A diplomacia brasileira não espera grandes dificuldades iniciais com o governo Trump. As condições estão colocadas na mesa. Os receios são de outra qualidade. Os diplomatas percebem, até agora, que o novo presidente dos Estados Unidos não é um blefe.

Suas promessas de campanha são para valer. As pessoas que ele está colocando em cargos estratégicos na composição do seu governo indicam que ele vai mesmo tentar fazer a história voltar aos tempos pré-globalização.

O Itamaraty conseguiu reverter o mau humor internacional dirigido ao governo Temer. A palavra de ordem do golpe constitucional quase virou verdade nos meios liberais europeus. Os petistas trabalharam bem. Tocaram o tambor. A diplomacia agiu como sempre, objetiva e discreta. Restaram as dificuldades no continente.

Brasília praticamente não mais tem relações com Caracas. No entanto, o governo Nicolas Maduro atendeu ao Brasil abrindo a fronteira duas vezes em Roraima. Também com o Equador as relações estão em nível baixíssimo. Os países estão sem embaixadores nas respectivas capitais.

Com os bolivianos as relações estão em baixa, mas se mantem. E com o Uruguai as tensões reverteram depois que a ministra de relações exteriores da Venezuela aprontou um verdadeiro barraco em Montevideo, após tentar em Buenos Aires participar, sem ser convidada, da reunião dos países do Mercosul.

Todos cometem seus erros. Os países chamados bolivarianos estão em situação econômico-financeira muito difícil. Cada um deles trata de cuidar da própria agonia. Com os cubanos também as relações esfriaram. Mas Havana tem o problema Trump pela frente. O Brasil não é prioridade.

Uma pessoa se destaca nestes primeiros meses de governo Temer. É o general Sérgio Etchegoyen, ministro-chefe de Segurança Institucional, gaúcho de Cruz Alta, que tem uma longa carreira militar e exerceu altos cargos de chefia. Conhece o mundo civil. Ele organizou e participou da primeira reunião de diplomatas e militares para traçar um plano comum de segurança na área de fronteira.

As conversas caminharam e abriram novas perspectivas num terreno extremamente perigoso e mal conhecido. As rebeliões nas penitenciárias brasileiras são consequências do crime organizado, seja do tráfico de drogas ou de armas. Os chefes das organizações criminosas são agora executivos formados nas melhores universidades do planeta. A imagem de dirigentes mafiosos barrigudos é história.

O grupo que se autodenomina Família do Norte (FDN) é filhote dos já conhecidos PCC ou Comando Vermelho. Os dois possuem grandes ramificações com os carteis que produzem cocaína na Colômbia e no Peru. Não é novidade.

O Exército brasileiro, tempos atrás, manteve contato em nível de inteligência militar com o alto comando das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Na época, o conflito ficou restrito aos limites daquele país. Jamais entrou em território brasileiro porque havia acordo neste sentido. Hoje as FARC estão desmanteladas. É o momento mais perigoso porque as chefias intermediárias se liberam para vender suas competências, armas e contatos para quem pagar melhor.

A fronteira noroeste é longa, desprotegida e seca. A Amazônia passou a ser uma rota preferencial. A droga sai pelo Suriname, chamado de Paraguai do Norte pelos especialistas, de onde segue diretamente para Amsterdam.

Outro caminho novo e interessante é Cabo Verde, servido por linha área daquele país, que voa para Fortaleza, Natal e Recife. É o novo paraíso dos entorpecentes. E tudo passa pela plataforma brasileira. O governo do Brasil ainda não percebeu que a séria ameaça contra a governabilidade não é mais a esquerda, nem os países bolivarianos.

Uns e outros estão desmoralizados pelos resultados conquistados depois de anos de extravagâncias no exercício do poder. O dinheiro do tráfico compra votos e consciências. Este é o novo desafio colocado diante das autoridades de Brasília.

Publicado no Correio Braziliense em 14/01/2017.