O ano novo, para alguns, é símbolo de esperança e recomeço. Para outros, tudo continua igual e é consequência do que foi feito anteriormente. E uma das consequências de 2016, que ninguém pode ignorar, é a descrença na política tradicional.

No Brasil o ano foi marcado por polêmicas, escândalos e crimes em tal proporção que a crise institucional é generalizada. A Lava-Jato chegou ao primeiro escalão com ministros, ex-ministros e chefes do executivo e legislativo citados em delações.

A população ciente de sua fragilidade no sistema atribui ao Judiciário um caráter heroico e eleva a status de celebridades juízes e procuradores, que não estavam fazendo mais do que a sua função exige. Esse apoio popular às investigações e caça aos corruptos pelo MPF, cria um imbróglio entre o Legislativo e Judiciário que começa, de certa maneira, a ultrapassar certos limites institucionais, como a devolução do projeto das 10 medidas contra a corrupção ao Congresso.

Por outro lado, um outro sintoma da saturação das pessoas com a política convencional foram os resultados das eleições municipais. A elevada abstenção e a eleição dos “não políticos”, são evidências da mudança no cenário atual.

O exemplo mais emblemático foi a vitória de João Dória no primeiro turno em São Paulo, a maior cidade do país. Sem carreira política e experiência em cargos de gestão, secretário de turismo de SP e presidente da Embratur, Dória baseou sua campanha no argumento de não ser político e de poder trazer para a sua prática elementos de seu sucesso empresarial e pessoal. Esse distanciamento garantiu a sua vitória, mas não se sabe se será suficiente para superar a crise que as prefeituras e estados estão atravessando.

O fenômeno dos não políticos atingiu também o hemisfério Norte com a eleição de Donald Trump, nos EUA. E não é novidade. Desde sempre, celebridades (e partidos) usaram sua popularidade para alcançar cargos eletivos, principalmente no Legislativo.

Exemplos recentes, como Falcão, Romário, o ex-bbb Jean Wyllys, o cantor Sérgio Reis e o humorista Tiririca, podem ser encarados como uma resposta negativa aos políticos de carreira. Alguns não se mantém, pois o tempo de um mandato pode ser suficiente para esvaziar a popularidade que tinham anteriormente.

Como exceção à regra temos o deputado Romário que, mesmo tendo sido citado recentemente em delação, tem um bom histórico de participação parlamentar com aprovação de emendas e projetos de interesse do seu público. Tanto fez, que pode até vir a concorrer para prefeito ou governador.

Um outro exemplo aconteceu em 2010 em Reykjavík. Jón Gnarr, personagem cômico de Jón Gunnar Kistinsson, venceu as eleições da capital da Islândia, segundo mais importante cargo politico do país. O comediante sem nenhuma formação acadêmica, vocalista de banda punk e polêmico humorista de rádio, criou um partido fictício para concorrer ao parlamento e confessamente ter um rendimento fixo ao mês.

A recepção da piada foi tão boa que ele registrou o partido e lançou a candidatura a prefeito. Em sua campanha assumiu que não tinha plataforma e que não honraria nenhuma de suas promessas, mas que as pessoas podiam confiar que o seu partido, “best party”, era o melhor.

A crise política no país era tamanha que 34% do eleitorado achou que era melhor confiar em um piadista profissional do que nos piadistas que estavam no poder, e elegeu Gnarr. Obviamente, sua gestão foi meticulosamente acompanhada pela mídia e pelas redes sociais, mas contrariando as previsões, Jón acabou sendo um dos mais bem-avaliados prefeitos da história da cidade.

No entanto a política não se faz com exceções ou extremos, e estamos chegando ao limite do que é seguro para a manutenção da nossa jovem democracia. Assim como a população islandesa estava cansada do mesmo, e colocou um palhaço no poder, a população brasileira tem se mostrado disposta a tudo pela mudança.

A celebração de figuras como o Juiz Sérgio Moro como salvador da pátria, ou a invasão do congresso nacional com o pedido de intervenção militar são sinais de quanto o sistema atual está nas últimas.

A solução não é simples, não é imediata e muito menos clara. Ser contra o sistema pode parecer um grito de liberdade. Mas agir sem entender as normas que regem a relação entre os poderes e o que o enfraquecimento de um em detrimento de outro pode ocasionar, a médio e longo prazo, é temerário.

Um apolítico no poder pode agravar uma crise sem ter poder de negociação ou pulso para governar. Pode acabar tornando-se uma figura decorativa, risco que corre Trump sob pressão da maioria republicana no Congresso.

Dória talvez venha a ser o Gnarr tupiniquim, pode ser um ótimo prefeito já que também tem um histórico de ser um bom administrador. Mas também é uma exceção à regra. Esperemos que a lição tenha sido aprendida pelos velhos políticos e que uma profunda reforma política restaure a confiança da população.

Que a discussão levantada pelos recentes eventos políticos permitam que uma nova geração cresça com novos valores, para que uma nova política seja possível sem a necessidade de medidas extremas ou exceções.