Na dramática votação final ocorrida no Senado Federal, de que resultou o impeachment de Dilma Rousseff, o presidente Ricardo Lewandowski, do STF e do Senado Federal, decidiu, por sua conta e risco, aceitar emenda que re-interpretou a Constituição Brasileira. A ex-presidente foi afastada, mas não teve seus direitos políticos suspensos, conforme determinação expressa da lei maior no país. Houve críticas no Supremo Tribunal Federal. Mas o tempo passou, Dilma foi esquecida. Reapareceu em Cuba, no enterro de Fidel Castro, ao lado de Nicolás Maduro.

Os ministros do Supremo se rendem aos fatos. Já aconteceu outras vezes na história do Brasil. O episódio recente começou torto. O Ministro Marco Aurélio Melo poderia ter postergado sua decisão e submetido o assunto ao pleno antes da sentença. Preferiu agir de imediato, monocraticamente, sem tomar conhecimento das consequências. A bomba explodiu no Senado e no Supremo. Nos dois lados os bombeiros correram para superar a crise. Foi o que aconteceu: Renan Calheiros reassumiu a presidência da casa, saiu da linha sucessória da presidência, mas o polêmico projeto que trata de abuso de poder sumiu do horizonte político. Os dois lados recuaram suas linhas de ataque. E o governo Temer deverá colocar em votação a emenda que trata do teto dos gastos.

Futuro incerto da Política

A confusão é consequência da delação premiada dos mais de setenta executivos da Odebrecht. Os deputados tentaram reagir na madrugada seguinte ao desastre do time da Chapecoense. Conseguiram irritar brasileiros em todo o país. As manifestações do final de semana foram eloquentes. O presidente do Senado trabalhou para apressar a votação no Senado. Provocou o esbarrão entre Legislativo e Judiciário. São movimentos de defesa. O tsunami está chegando. Muita gente vai deixar a política. Outros irão para as celas de Curitiba. As prisões estão cheias. No Rio de Janeiro, o ex-governador e sua esposa, estão encarcerados em Bangu 8. O tempo fechou para os políticos.

Quem disser que sabe o que vai acontecer no Brasil nos próximos tempos é insano ou anda mal informado.

Operação Mãos Limpas

A Operação Mãos Limpas, na Itália, precursora da Lava Jato, atuou de forma brilhante. As investigações e condenações ocorreram entre 1992 e 1996. A partir da delação premiada de Mario Chiesa, que dirigia uma instituição filantrópica, em dois anos 2.993 mandados de prisão foram expedidos, 6.059 pessoas foram investigadas, incluindo 872 empresários, 1.978 administradores locais e 438 parlamentares.

A principal consequência foi que os principais partidos nacionais (Democracia Cristã, Socialista, Comunista e Liberal) se desmancharam. A política passou a oscilar entre legendas improvisadas, de vida curta, apenas a duas ou três eleições. Depois sumiam. No Brasil, com mais de trinta partidos em funcionamento, o fenômeno é semelhante. A improvisação na política brasileira é cada vez maior. Este cenário na Itália abriu espaço para o surgimento de Silvio Berlusconi desde 1995. E das ações contra políticos de Beppe Grillo, e seu Movimento Cinco Estrelas, um populismo extremado. Meios eletrônicos e publicitários foram utilizados por Berlusconi, proprietário da maior rede privada de TV da Itália. As redes sociais ficaram, na maioria, conectadas à Beppe Grillo.

A história italiana recente é de instabilidade política. Mussolini dizia que tentar governar a Itália não é difícil, é inútil. Mas lá, além da maneira peculiar dos italianos se relacionarem com o governo, o sistema é parlamentarista. O país fica meses sem governo central e funciona normalmente. Aqui, o sistema é falho e fraco e deficiente. Não resiste a uma crise mais forte. Os índices da economia enlouquecem. E a inflação dispara. Ninguém no Brasil de hoje está preocupado com a construção de uma engenharia política capaz de absorver o cataclisma que está a caminho.

Tempo de acelerar

O governo Temer está envolvido por economistas que só enxergam a macroeconomia. Não percebem a enormidade do desemprego, nem a tragédia da economia debilitada pela corrosiva ação dos governos petistas. A recuperação não será rápida, nem fácil. Impor teto de gastos é importante para o futuro. Reformar a previdência, também. Mas o exército de desempregados vai colocar gente na rua nos próximos meses e os políticos acossados pela Lava Jato poderão promover outras loucuras. Temer precisa anunciar seus projetos. A época de se mostrar tímido diante da enormidade da crise já passou. O presidente está perdendo tempo, substância e ministros. Só lhe resta avançar.