O presidente Michel Temer (PMDB) está gastando mais do que dispõe nos cofres públicos e condescendendo com políticos encrencados com a ética. Muito parecido com a antecessora, Dilma Rousseff (PT).

Como a petista esteve à frente de um governo desastroso, não é modelo para ninguém. Ao contrário. Poderia ser regra para os novos governantes: agir sempre de maneira diversa ao da mandatária deposta.

Cálculo do jornalista Ribamar Oliveira, do Valor Econômico publicado na quinta, 24, concluiu que o governo Temer está praticando política fiscal expansionista. Em linguagem de gente comum, aumentando os gastos.

Dilma sofreu impeachment por uma série de fatores. Primeiro, mais importante, por que cometeu crime de responsabilidade. Decisivas, também, foram a rejeição das ruas a ela e ao PT e a recessão provocada por sua inabilidade na condução da economia.

Temer repete sempre que não busca popularidade. O objetivo de seu mandato-tampão seria arrumar as contas públicas e pacificar o País. Nesta toada, ambos os compromissos estão ameaçados.

Ao persistir em gastar mais do que arrecada – inchando salários de servidores, aumentando despesas discricionárias e enchendo as burras de governadores perdulários -, o presidente repete a receita da antecessora. Gasta o que não tem.

Enquanto isto, no campo da ética, o que se vê é a repetição de parâmetros frouxos. Como Dilma, Temer cercou-se de sujeitos crivados de suspeitas.

Claro, a realidade da política brasileira empurra o governante para companhias com reputação duvidosa. O governo em curso, porém, exacerba esta premissa. Defrontado com suspeitas graves, como a patrocinada pelo ministro Geddel Vieira Lima (PMDB), tergiversou.

Pior. Patrocina tentativas que confrontam a opinião pública, como a revelada pelo jornalista Raymundo Costa, do Valor, na sexta, 25.

De acordo com a apuração, aliado a um punhado de empresários Temer estaria disposto a chancelar a anistia gestada no Congresso Nacional para crimes praticados por parlamentares. Em troca da consolidação do apoio parlamentar ao seu governo, cederia na ética.

Diante das gravações do ex-ministro Marcelo Calero, que o alcançaram, o presidente recuou ao anunciar que vetaria qualquer anistia a crimes perpetrados por parlamentares. Agiu diante da iminência da represália vinda das ruas.

A paciência cidadã está se esgotando

Descolada dos sentimentos de cidadãos cada vez mais impacientes, a Câmara dos Deputados foi em frente e aprovou na madrugada desta quarta, 30, um texto deformando o projeto que previa medidas de combate à corrupção. Uma tentativa de retaliar a Operação Lava-Jato.

Como nosso sistema é bicameral, resta a votação do Senado, que poderá preservar ou rejeitar as mudanças dos deputados. Provavelmente ano que vem. Desde já, porém, fica a pergunta: como Temer reagirá se o projeto chegar desfigurado às suas mãos?

Afinal, as ruas continuam inquietas. Domingo, 4, é a vez do grupo que apoiou o impeachment manifestar o que pensa. Ou seja, o Palácio do Planalto pode apanhar dos dois lados – dos “Fora, Dilma” e dos “Fora, Temer”.

Político veterano, Temer mantém amarras com o passado e com quem já passou. Faz política à moda antiga. Expressão que geralmente insinua bons tempos, política à moda antiga é tudo o que o eleitor não quer.