Os 460 votos da eleição que escolheu Rodrigo Maia (DEM) novo presidente da Câmara dos Deputados, na última quarta, 13, podem ter sido motivados por mesquinharias, vendeta ou estratégia de poder. De qualquer jeito, o saldo é uma Casa politicamente mais delineada e um Palácio do Planalto fortalecido.

Na corrida de obstáculos para, em suas palavras, “colocar a economia nos trilhos”, o presidente Michel Temer (PMDB), o interino, obteve uma vitória imprescindível. Afinal, em que pese o imenso poder do Executivo brasileiro, seu titular não faz reformas sem o apoio do Legislativo.

Inda mais quando o Executivo tem metas tão ambiciosas. De acordo com o ministro Eliseu Padilha (PMDB), da Casa Civil, um dos principais auxiliares de Temer, até o fim do ano o governo quer aprovar as reformas previdenciária, trabalhista, tributária e política. Sem falar na proposta de teto para os gastos públicos, o cerne da nova política econômica e cuja tramitação engatinha na Câmara.

A eleição de Maia, que venceu com 285 votos, indicou que o Parlamento quis se livrar do deputado Eduardo Cunha (PMDB), o ex-poderoso presidente da Câmara. Defenestrado por seus pares depois que investigações indicaram a existência de contas no exterior em nome do parlamentar abastecidas com dinheiro de propina, Cunha tornou-se um estigma que travava a Casa.

A reorganização partidária advinda da eleição de Maia configura-se como causa e consequência. O centrão, ajuntamento de partidos antes liderados por Cunha, deve se “desidratar” a depender da vontade de Temer. PSDB, DEM e PSB emergem fortalecidos. PT e entorno refluem mais um pouco rumo à oposição.

A Câmara Baixa ganha, agora, uma oportunidade de mitigar a imagem negativa que forjou diante da opinião pública. Tirante parte da oposição que não quererá a retomada do crescimento econômico, pois ele redundará em prestígio eleitoral para o governo, “colocar a economia nos trilhos” certamente é o desejo da maioria da população.

Embora o conceito de crescimento permita variantes, um consenso razoável sugere uma tríade: a volta do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), o combate à carestia e, principalmente, o refluxo do desemprego. Para que este caminho seja abreviado, ensinam os economistas, é necessária a geração de expectativas positivas.

Estas, por sua vez, dependem que as ações do Planalto para debelar a crise tenham aceitação ampla. Depois, acolhida pela maioria, a aceitação precisa se converter em apoio parlamentar, já que a opção de Temer foi por mudanças na legislação.

Por isso é crucial o apoio de Maia. Caberá a ele arbitrar a pauta de votação da Câmara Baixa, casa do Legislativo onde a maioria dos projetos começa a tramitar.

 

A nova trindade política

 

“Quero aprovar essa agenda de superação da crise econômica”, disse Maia em entrevista ao O Globo, já como novo presidente da Câmara. “A vitória de Rodrigo Maia é uma demonstração sobeja de que a boa política não morreu”, comemorou Renan Calheiros (PMDB), presidente do Senado.

Com o apoio de Maia e Renan, Temer tem meio caminho andado para aprovar suas reformas. Primeiro por que o trio tem afinidades ideológicas. Por exemplo, nenhum deles tem medo de privatizações.

Segundo, e talvez mais decisivo, os três são políticos profissionais. A troca de Dilma Rousseff por Temer e de Cunha por Maia trouxe a volta da política à ribalta. Dilma desprezou a política; Cunha não soube lidar com ela, cultivando caudatários em vez de aliados.

Renan, o terceiro elemento da nova trindade política, é investigado em mais inquéritos do que Cunha, mas sobreviveu a todos. Até aqui, o senador mostrou-se mais habilidoso do que o deputado – embora as denúncias contra ambos sejam semelhantes.

O presidente interino transpôs uma barreira, mas há muitas outras. Logo depois do breve recesso parlamentar de julho, Temer vai se deparar com a mais decisiva de todas. A votação do impeachment de Dilma no Senado está prevista para a penúltima semana de agosto. Para seguir correndo, ele precisará de, pelo menos, 54 votos.

Agosto é também o mês da votação que determinará se Eduardo Cunha será ou não cassado pelos colegas. No mesmo período, sob os olhares do mundo, o Brasil sediará os jogos olímpicos. Além disso, a Operação Lava-Jato deve prosseguir revelando maracutaias e decepando cabeças. A corrida de obstáculos está apenas começando.