Nossa cultura adora a mitologia. Dizia-se que Eduardo Cunha era imortal politicamente porque, como financiara uma grande bancada, tinha controle absoluto sobre seus atos. Mito. O Conselho de Ética acaba de aprovar parecer do deputado Marcos Rogério (DEM-RO) cassando o mandato do presidente afastado da Câmara por 11 votos a três.

O processo segue agora para análise do plenário, que deverá dar os 257 votos necessários para confirmar a decisão, mas cabe recurso à Comissão de Constituição e Justiça. Ora se num plenário menor, formado por 21 integrantes, muito mais fácil de ser dominado, Cunha perdeu, não seria num ambiente pulverizado como plenário, com voto aberto, que ele venceria.

Os votos dos deputados Vladimir Costa (SD-PA) e Tia Eron (PR-BA) contra ele foram surpresa apenas para o próprio Cunha. Costa convenceu-se que não valia a pena desgastar-se ficando ao lado do deputado carioca no Conselho de Ética para perder no plenário da Casa. Além disso, seu líder, Paulinho da Força, distanciou-se do presidente afastado nos últimos dias.

As razões que levaram Tia Eron a mudar o voto foram outras. O ministro Marcos Pereira, comandante do seu partido, o PR, nada deve a Cunha e recebeu forte pressão de uma banda do governo Temer que defenderam a eliminação rápida do presidente mais poderoso da Câmara nos últimos tempos.

Cunha: a política não via um caso assim há anos

Há mais de 40 anos em Brasília, nunca vi duas coisas: 1) o retorno ao poder de um ex-poderoso (o caso de Lula é exemplar); 2) a sobrevivência de um poderoso que cai em desgraça; 3) poderoso com coragem suficiente para contrariar a opinião pública. Por uma razão muito simples, no exemplo 2 – a contaminação.
O inferno astral de quem está na berlinda só piora e quem era a favor fica contra para não ser arrastado. Pode até sobreviver por um período mais longo, como foi o caso de Eduardo Cunha. Mas quando pronuncia a frase mortal “a palavra renúncia não faz parte do meu dicionário”, significa que está morto. Equivale a “o técnico está prestigiado”. Ontem, a frase foi: “Só temo a morte”, como disse Dunga antes de seu funeral.

A trajetória de Cunha foi impressionante. Em menos dez anos ele saiu da manada para a liderança, com um desempenho espetacular. Seguramente foi o político mais ambicioso a transitar pelos corredores do Congresso nos últimos tempos – gênio, audacioso, mas ansioso, a incrível doença do século.

Desde o final da tarde de ontem, o tema Cunha baixou para o arquivo morto. Discute-se seu sucessor, alguém que aceite um mandato de seis meses. Começa aí nova polêmica. Está a caminho uma bruxaria para eleger alguém que só entregue o cargo no final de 2019.