O novo chanceler brasileiro, senador José Serra (PSDB-SP), fez questão de uma cerimônia de posse com pompa e circunstância. Embora já esteja trabalhando desde a última quinta-feira, 12, quando nomeou um diplomata para o lugar do então assessor internacional Marco Aurélio Garcia, seu primeiro ato à frente do novo Itamaraty, Serra queria algo marcante, capaz de pautar a comunidade internacional.

O evento pretendia enviar uma mensagem clara para os públicos interno e externo. Aos diplomatas, Serra deixou claro que sua gestão deverá girar em torno de uma política exterior de Estado e não de partido. É como deveria ser sempre, mas nos últimos 14 anos, não foi o que se viu. O que viu foi um ministério de Relações Exteriores cada vez mais desidratado. E um país cuja imagem foi seriamente comprometida.

O ministro falou em resgate. Resgate da carreira, do orgulho em pertencer à Casa de Rio Branco, em representar os interesses do Brasil lá fora. Tudo muito bonito e extremamente ufanista, mas que carece de algo básico: dinheiro.

Serão necessários pelo menos R$ 800 milhões para evitar que nossos diplomatas sigam enfrentando constrangimentos por inadimplência nas contas de água, luz, telefone, gás, escola dos filhos e aluguéis. Para resgatar a força da diplomacia e recolocar o país na cena internacional, serão necessários outros R$ 3,2 bilhões só para quitar débitos acumulados.

José Serra não chegou para ser mais um ministro, mas protagonista
José Serra não chegou para ser mais um ministro, mas protagonista

O Brasil deve para pelo menos 120 organismos internacionais e está na iminência de perder o direito de voto em vários deles, inclusive na Assembléia Geral que anualmente abre seguindo tradição inaugurada em 1947. No orçamento de 2016, o governo da presidente afastada, reservou apenas R$ 250 milhões para pagar tais dívidas, menos de 10% do total.

Trata-se de um quadro que guarda relação direta com o desinteresse da ex-mandatária pelos temas de política externa e sua confessada indiferença pelos servidores do Itamaraty. Agora, há ao menos uma sinalização de que essa situação tende a mudar significativamente.

Qual a mensagem de Serra para o público externo?

Já a mensagem para o público externo não poderia ter sido mais cristalina. O Itamaraty sob Serra será o condutor de uma política exterior focada no comércio e nos negócios, vigilante com as transgressões conforme ilustra sua tradição e pragmática.

O eixo bolivariano reage. Sabe que está fadado ao próprio fim colapsado não por golpes, mas por uma mistura perigosa entre incompetência e corrupção. Aqueles que se valeram da promiscuidade ideológica, perderão a vez. Quem insistir na lógica de Goebbels, de que uma mentira dita muitas vezes se torna uma verdade, dará com os burros n’água.

José Serra não chegou para ser mais um ministro, mas protagonista. Se vai conseguir, são outros quinhentos, mas não lhe faltam disposição e verborragia.

 

Veja a íntegra discurso de posse do Serra:

A diplomacia voltará a refletir de modo transparente e intransigente os legítimos valores da sociedade brasileira e os interesses de sua economia, a serviço do Brasil como um todo e não mais das conveniências e preferências ideológicas de um partido político e de seus aliados no exterior. A nossa política externa será regida pelos valores do Estado e da nação, não do governo e jamais de um partido. Essa nova política não romperá com as boas tradições do Itamaraty e da diplomacia brasileira, mas, ao contrário, as colocará em uso muito melhor. Medidas que, em outros momentos, possam ter servido ao interesse nacional, quero dizer, podem não ser mais compatíveis com as novas realidades do país e com as profundas transformações em curso no cenário internacional.

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