O Brasil está no olho do furacão ao lidar com três crises simultâneas que se retroalimentam e provocam danos sérios à economia e à política externa, como de resto, ao país como um todo. As crises política e econômica encontram-se sob o guarda-chuva de outra ainda pior que é a moral e de credibilidade. E é neste ponto que o país mais perde.

Os avanços conquistados nos últimos anos estão sendo jogados no lixo por conta do acirramento e da polarização em torno da crise política agravada com a nomeação do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva para o cargo de ministro-chefe da Casa Civil. Do ponto de vista de quem está no exterior, a manobra é vergonhosa e guarda relação direta com a blindagem que se pretende oferecer ao ex-presidente ante a iminência de sua prisão.

É uma conclusão semelhante a que chegamos aqui, mas para a comunidade internacional, o nível de gravidade é inaceitável. Há fortes preocupações em que as coisas não terminem bem e o país mergulhe numa crise institucional real, a ante-sala da convulsão social. O estrangeiro lê o noticiário com outros olhos e percepções.

A imagem positiva de um Brasil moderno e capaz de lidar com suas mazelas, de reduzir a pobreza e pôr fim à fome, agora dá lugar ao Brasil dos esquemas, da corrupção, que desnuda um regime que nunca teve um projeto de Estado, mas unicamente de poder. Não são poucos os que se envergonham com os termos usados por Lula e seus companheiros, nas gravações tornadas públicas.

A diplomacia brasileira acaba sendo sugada pela crise e nossas representações no exterior passam mais tempo explicando o que está acontecendo e o que pode acontecer. Para piorar o cenário, o Itamaraty, antes sinônimo de excelência e profissionalismo, é usado descaradamente por militante partidário numa operação de engano sobre os fatos em curso no país.

Há uma semana, descobriu-se que o ministro Milton Rondó Filho, responsável no ministério das Relações Exteriores pela propaganda ideológica dos programas sociais do governo, emitiu dois telegramas às embaixadas e consulados brasileiros no exterior, para serem levados à opinião pública e organizações da sociedade civil estrangeiras, sobre um possível golpe contra a presidente Dilma Rousseff.

O diplomata não sofreu qualquer punição e caberá ao chanceler Mauro Vieira render explicações no Senado sobre o uso da máquina pública para atos de militância partidária. Pior que o ato do ministro petista é o silêncio obsequioso do ministério das Relações Exteriores.

Além disso, a crise contamina tudo. Empresários não estão conseguindo fechar negócios simplesmente porque não têm respostas sobre o desfecho desta situação. Os danos ao comércio exterior e ao fluxo de investimentos estrangeiros são concretos.

Os esforços feitos em conjunto pelos ministérios das Relações Exteriores e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior com o objetivo de fortalecer os acordos de facilitação de comércio agora esbarram na credibilidade posta à prova, afinal, quem pretende investir cobra um mínimo de segurança e estabilidade, algo que o Brasil não tem como oferecer neste momento.

Os governos estrangeiros já não confiam no cumprimento dos compromissos assumidos. Não sabem se um acordo firmado será honrado. Sequer crêem que o interlocutor de hoje será o mesmo de amanhã.

As especulações em torno da substituição do chanceler Mauro Vieira pelo ex-presidente ou mesmo a sua possível saída para o retorno de Celso Amorim, homem de confiança de Lula, só alimentam as incertezas e contribuem para prejudicar ainda mais toda e qualquer tratativa realizada pelos diplomatas brasileiros.

O panorama da Política Externa num país em crise é sombrio, incerto e constrangedor. Isso sem contar a paralisia que atinge toda a estrutura do Estado em compasso de espera por uma solução que não chega e tendo de lidar com o agravamento das disputas políticas que colocam o país e seus interesses maiores num segundo plano.