Faltando pouco mais de vinte dias para a votação da abertura do processo de impeachment na Câmara dos Deputados, o governo e seus aliados optaram por radicalizar o discurso e os atos públicos no Palácio do Planalto.

O salão nobre das solenidades comandadas pela presidente passou a lotar com plateias formadas por militantes dos movimentos sociais convidados para agregar clamor de manifestação e claque de encomenda a cada palavra “golpe” pronunciada por Dilma.

Depois que cinco ministros do Supremo deram entrevistas esclarecendo que o ato do Congresso afastar um mandatário está previsto na Constituição, o bordão da presidente passou a ser “impeachment sem crime de responsabilidade é golpe”.

Do ponto de vista tático, radicalizar por meio de palavras de ordem e verdadeiros comícios dentro das instalações do Palácio do Planalto é uma opção. Tem vantagens e desvantagens. Na verdade, mais desvantagens, já que o governo deveria trabalhar com a perspectiva de construir o futuro e não se atrelar ao desespero, atitude típica do perdedor.

Ao optar pela radicalização, o governo passa algumas mensagens. Para seus arraiais, uma demonstração de força da resistência. Para os mais equilibrados, a opção demagógica motivada pela ausência de perspectivas. Aos demais, sinal grave de imaturidade institucional.

Na prática, ao estigmatizar o processo como golpe o governo dá muitos tiros no próprio pé: eleva desnecessariamente a temperatura do debate, acentua a política do “nós contra eles”, isola-se quando mais precisa de pontes.

Principalmente depois que os juristas Miguel Reale e Janaina Botelho demonstraram com sólidos argumentos que houve, sim, crime de responsabilidade. E não apenas um, mas vários, prejudicando principalmente os mais carentes, com inflação, desemprego e suspensão de pagamento de planos. Hoje será a vez da defesa, comandada pelo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, expor suas razões na Comissão do Impeachment.

Nas últimas semanas, mesmo quando havia pedidos de calma de lado a lado, o governo optou por espicaçar o PMDB. Que aceno envia aos aliados com um comportamento desse? Que prefere a imposição, a força. Ao invés de tentar promover a aglutinação e lutar com elegância para se salvar, separa ainda mais.

Imagine que o governo venceu a batalha na Câmara. Não haverá muito o que fazer com pouco mais de 172 votos. Irá governar por medidas provisórias? Será muito difícil enfrentar mais de 300 deputados motivados a prosseguir tentando o impeachment. A batalha não se encerraria no primeiro pedido. Seria mais uma vitória de Pirro, tal qual foi a eleição de Picciani para líder do PMDB.

Vitórias desse tipo não têm grande utilidade se não restar pedra sobre pedra para reconstruir uma base razoável. Perder em política é sempre ruim. Mas ganhar de qualquer jeito é péssimo.

Radicalizar é uma opção de risco que, entre outras coisas, agride o bom senso e a inteligência, artigo escasso no atual governo. Esquecem que quem pode salvar a presidente do impeachment não é o PT. Tampouco o PCdoB.