A nomeação de Lula para a Casa Civil é um ato dramático de elevado risco político. Tanto para o governo quanto para ele mesmo. Contudo, apesar de todos os aspectos negativos da escolha, não restava à presidente Dilma Rousseff alternativa, a não ser entregar o governo ao ex-presidente.

Na prática, Lula chega para fazer uma intervenção em um governo que teimou em refutar suas opiniões, ou as acatou apenas em parte. Comandará, ideologicamente, a presidente e o governo, algo que nunca conseguiu fazer inteiramente desde que sua sucessora se elegeu.

Transformará o terceiro andar do Palácio do Planalto em comitê contra o impeachment e em pátio de milagres, para o qual muitos se dirigirão, em romaria, a fim de buscar o conforto político que Dilma sempre lhes negou. Apesar de toda a polêmica e de inúmeros aspectos inconvenientes, Lula é uma espécie de desfibrilador para o paciente que está tendo uma longa parada cardíaca.

A incerteza reside em saber se esse paciente ficará sem sequelas, já que o governo está mortalmente ferido econômica, política, jurídica e moralmente. Será que aguenta uma enxurrada de denúncias e de suspeitas, inclusive três de obstrução da Justiça?

Será que aguenta tantas trapalhadas como as gravações de Aloizio Mercadante e o ex-¬presidente Lula sobre a operação Lava-Jato?

Há quem pense que Lula será o Romário de 1993, que voltou para salvar a Seleção nas eliminatórias. Outros reconhecem em Lula, ferido pela Lava-Jato, o Zico de 1986: debilitado por grave contusão, o herói rubro-negro bateu fraco o pênalti que poderia levar o Brasil adiante na Copa do Mundo.

Como disse Marx, Carlão para os íntimos, a história se repete como farsa ou como tragédia. Pode ser que Lula não seja nem Romário nem Zico. Mas, sem dúvida, terá que fazer milagres para tirar o governo da UTI.