Diante do cenário cada vez mais conturbado na política e imprevisível na economia é real o risco de conflagração. Assim, não foi exagerada a sombria admoestação do ministro Marco Aurélio Mello, do STF (Supremo Tribunal Federal), na última terça, 8 de março, quando disse temer o “surgimento de um cadáver” – alusão às manifestações do próximo dia 13.

A condução coercitiva pela Polícia Federal do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sexta, 4, seguida do pedido de prisão do petista pelo Ministério Público de São Paulo na última quinta, 10, catapultaram os ânimos nacionais. Tanto os que defendem o impeachment da presidente Dilma Rousseff quanto os que o condenam estão tocando uma oitava mais alta.

Cabe sempre destacar que os nervos não estão à flor da pele à toa. Mais do que a política, é a economia que acossa os cidadãos. A inflação que golpeia a todos (sobretudo os mais desassistidos), o desemprego que devasta a vida de milhões, a inépcia governamental que paralisa empreendimentos, a política que nada medeia e, o mais desalentador, o futuro cada vez mais incerto, impulsionam a cidadania a buscar alternativa ao soçobro econômico.

Quanto mais acirrados os ânimos menor a possibilidade de entendimento. O debate argumentativo cede lugar à rala confrontação de interesses. Ouvidos tornam-se moucos convertendo supostos diálogos em solilóquios imprecatórios. Sem mediação, cresce o risco do confronto.

Evitá-lo é tarefa para os poucos que permanecem serenos em momentos de efervescência – e que têm poder para tanto. Já o estímulo à virulência das pelejas torna-se descomplicado. Bastam algumas provocações, alguns xingamentos, um dedo em riste, e a azáfama converte-se em tumulto.

Conflitos em marcha

Incitar o frenesi nas ruas concerne, em primeiro lugar, aos situacionistas mais contumazes como forma de desviar os olhares do que mais aflige o país: o ruinoso governo Dilma e a operação Lava-Jato, que vasculha o escoadouro de recursos da Petrobras. O primeiro flagela cidadãos de todas as paragens; o segundo é ameaça à continuidade do primeiro.

Por suposição, não deveriam interessar aos que querem o fim do governo Dilma escaramuças que redundem em violência física – altercações verbais e virtuais, muitas vezes beirando à cólera, tornaram-se triviais. No clima beligerante que vivenciamos, hostilidades podem degenerar em instabilidade institucional.

Fora das alternativas legalistas emergem os vivandeiros do golpe militar de 1964, que conduziu o Brasil a duas décadas de ditadura fardada. Uma imolação em praça pública poderia calhar àqueles que gostariam de ver os habitantes da caserna novamente com as rédeas da República.

De um lado, dos que defendem a destituição da presidente, há uma massa difusa e amorfa. Garantindo-lhes sustentação, voluntária ou não, os partidos oposicionistas, parcela preponderante da mídia, empresários e, sobretudo, os procuradores, delegados e juízes da operação Lava-Jato.

Do outro vestem-se para a contenda o partido político da mandatária, sindicatos e movimentos sociais. Experimentados nas ruas, incrustados no aparelho estatal, mas, mormente, motivados pelo muito do que têm a perder: o comando do país.

Em meio à guerra que se arma tomam posições o PMDB, os juízes da Suprema Corte e do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), e o quinhão hesitante do empresariado e do sistema financeiro. Não que restem ilusões sobre a capacidade presidencial de safar-se da pirambeira em que se embrenhou, levando junto seus concidadãos, mas pelo indecifrável porvir em caso de vacância.

Invocar Irene ou insuflar a insídia

Caso o pendor majoritário se incline para a solução pacifista e legalista será preciso apelar à Irene, a deusa da paz. Para evitar ciladas, os eflúvios da deidade grega deveriam recair primeiro sobre os que detêm o monopólio da violência. Tanto à presidente (chefe das forças armadas) quanto aos governadores (chefes das polícias militares) cabe garantir a livre manifestação, desde que pacífica (artigo 5º, inciso XVI, da Constituição).

Motor essencial da crise política, a operação Lava-Jato deve ser conduzida com parcimônia e responsabilidade. Membros do Ministério Público, assim como os magistrados, não podem esquivar-se da atribuição precípua de zelar pelo “regime democrático” e a “solução pacífica dos conflitos” (preâmbulo, artigos 127, caput, e 4º, inciso VII, da Constituição).

Os meios de comunicação igualmente adquirem aqui papel relevante. Embora não detenham o poder monopolista da informação como quer fazer crer a esquerda afonsina, estes veículos têm se posicionado cada vez mais abertamente pela deposição da presidente Dilma Rousseff. Edições crescentemente adjetivadas insuflam a animosidade das ruas.

Entretanto, por ironia, caberá ao maior líder popular da história do Brasil (ao lado do gaudério Getúlio Vargas) papel preponderante nos entreveros que se entreveem logo em frente. O outrora retirante Luiz Inácio da Silva, agora o Lula alvejado pela Lava-Jato, tem, talvez como nenhum outro personagem do quartel histórico que ora se delineia, o poder de apascentar as hostes que restam apoiando o status quo petista.

O silêncio de Lula pode equivaler a uma ordem ratificadora de condutas. Um arrazoado com sua inconteste eloquência sinalizaria a trégua. Já uma catilinária seria entendida como declaração de guerra, ou a volta do bordão “a luta continua”.

Se não é possível dimensionar o poder persuasivo que lhe sobrou, é certo que não há personalidade equivalente hoje no Brasil. É prudente, portanto, meditar antes de provocar o ex-presidente.

Difícil resistir aos paralelos com 1954, quando Getúlio Vargas suicidou-se após uma virulenta refrega institucional, ou com 1964, ano em que o alvoroço cívico e a conjuntura histórica internacional antagonizaram os próceres da nação instigando a sanha golpista dos generais. Decerto é que os tambores de 2016 começaram a rufar, e que não haverá desenlace sem dor.