Na quarta-feira, 24, três dias após a realização do referendo constitucional na Bolívia, o Tribunal Supremo Eleitoral (TSE), confirmou a vitória do Não com 51,3% contra 48,7% do SIM. Os resultados mostraram, entre outras coisas, que o esgotamento com o modelo “chavista-bolivariano” é uma realidade e que as pessoas querem renovação em lugar de perpetuação.

Este processo teve início com a eleição de Mauricio Macri na Argentina e passou pela vitória da oposição nas legislativas da Venezuela, também no ano passado. Brasil e Equador são dois importantes expoentes deste grupo que têm seus presidentes sob fortes questionamentos, queda de popularidade e aumento exponencial dos índices de rejeição.

A Bolívia é comandada pelo ex-líder cocaleiro Evo Morales há dez anos. O país logrou várias conquistas como, por exemplo, o controle sobre seus recursos naturais como o gás e o petróleo, mas em termos objetivos, ainda é um país muito pobre com uma elite muito rica. E a essa elite, somam-se os novos ricos, aqueles que gravitam em torno do poder dito “socialista e popular”.

Trata-se de um modelo que credita todas as desgraças de seu povo ao passado, àqueles que sempre governaram, mas que é incapaz de olhar para dentro de si e reconhecer os próprios erros, a soberba, a arrogância e, mais importante, a tentação pela corrupção mesclada com a incompetência gerencial.

Para a região, o mais importante foi o reconhecimento público do presidente boliviano quanto aos resultados, também chancelados pelas missões de observadores da UNASUL e da OEA. No entanto, o reconhecimento não significa aceitação, vide o exemplo venezuelano onde o presidente Nicolás Maduro perde todas as votações numa Assembléia Nacional controlada pela oposição, mas vence sempre que leva os mesmos temas à Suprema Corte de Justiça, esta ainda sob controle chavista.

Evo Morales talvez não tenha tanto poder assim e as instituições bolivianas não estejam neste nível de contaminação, mas nunca é demais reforçar as atenções para que os resultados das urnas, do desejo da maioria, seja plenamente respeitado.

E não podemos esquecer que a Bolívia está em vias de ingressar como membro pleno do MERCOSUL, sujeita, portanto, à Cláusula Democrática do bloco. Com o esgotamento deste modelo de governo, é possível que os preceitos democráticos ganhem mais força na região. Os mesmos que alçaram ao poder líderes como Lula, Nestor Kirchner, Hugo Chávez e Evo Morales, são os que agora os querem fora. Há um cansaço com relação ao embate ideológico que coloca em segundo plano o desenvolvimento econômico que é o que importa para as pessoas no dia-a-dia.

A derrota de Evo Morales também ameaça rachar a tênue unidade política boliviana em torno da demanda marítima contra o Chile. O ex-presidente Carlos Mesa, que conduz o processo, foi acusado por Morales de buscar o poder novamente nas eleições de 2019.

Há dez anos no poder, o boliviano também cometeu o erro de voltar-se tanto para si mesmo, para a própria personificação que esqueceu-se de preparar um sucessor, talvez acreditando verdadeiramente em sua perpetuação no cargo. Lá como cá, o problema é a incapacidade da oposição em tirar proveito do momento, da vulnerabilidade do grupo que governa, dos elevados índices de rejeição do presidente e até mesmo das denúncias graves de corrupção.

Em risco também os projetos estruturantes como a construção do trem bioceânico que ligaria o Porto de Santos (SP) até Ilo, no Peru, cortando mais de 1.5 mil km do território boliviano. Além disso, os investimentos necessários para converter a Bolívia no centro energético regional podem não chegar. A derrota do presidente alimenta as incertezas quanto ao futuro da Bolívia e isso impactará a região. O país vinha ocupando um importante papel neste eixo confrontacionista liderado pela Venezuela e sonhava com presidir a UNASUL em 2017.

O momento deveria ser de reflexão, pois não deveria interessar a ninguém uma Bolívia instável. Deveria ser o momento de países como Brasil, Argentina, Uruguai e até mesmo Venezuela, atuarem para que as coisas não saiam dos trilhos. No entanto, apenas a Argentina parece viver uma nova realidade. Os demais estão tão cheios de problemas domésticos que não seria nenhum absurdo que a Bolívia fosse simplesmente ignorada.