O novo ano tem apenas 12 dias de existência e os conflitos que o governo enfrenta em várias instâncias já se acumulam sobre a mesa da presidente. No nível judicial, a Operação Lava-Jato – sempre ela – produziu um grave estrago na seara política, que está na sua mira desde o final do ano passado. O jornal Estado de S. Paulo publicou que investigadores interceptaram mensagens de telefone nas quais o ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, aparece negociando apoio financeiro com o ex-presidente da empreiteira Leonardo Pinheiro. Conhecido como Léo Pinheiro, ele é um dos condenados por participação no esquema de corrupção da Petrobras; Wagner é ex-governador da Bahia.

As mensagens de texto teriam sido trocadas entre agosto de 2012 e outubro de 2014. Seu conteúdo são conversas a respeito de apoio financeiro ao candidato petista à prefeitura de Salvador em 2012, Nelson Pellegrino, e pedidos de intermediação a Wagner junto ao governo federal a favor da Odebrecht. Suspeita-se que parte dos entendimentos trate de doações para a campanha de Pellegrino.

Há um problema mais delicado: a revista Época desta semana publica que o governo brasileiro teria facilitado a concessão de um empréstimo de US$ 320 milhões para a construção de uma barragem, em Moçambique, por uma empresa controlada pela Andrade Gutierrez. A revista relata encontro entre a presidente Dilma Rousseff e o então presidente de Moçambique, Armando Quebuza, destinado a contornar obstáculos levantados pelo BNDES para liberar financiamento destinado a obra, o que acabou acontecendo. O BNDES divulgou os desmentidos de praxe.

Durante protesto convocado pelo Movimento Passe Livre, oito ônibus foram depredados em São Paulo, na noite da sexta-feira (8). Manifestações parecidas também ocorreram no Rio e em Belo Horizonte, com risco de reprise das batalhas de rua registradas em várias capitais em 2013, a partir de fato idêntico – o aumento das tarifas de ônibus.

No Rio, replica-se, em escala estadual, a crise econômica federal: uma dívida de R$ 1,4 bilhão com fornecedores da área de saúde, responsável pelo fechamento de sete hospitais e dezessete Unidades de Pronto Atendimento. Todos os dias, reportagens no Jornal Nacional da Rede Globo e manchetes na mídia impressa martelam que a falta de controle da economia local, atingindo a popularidade do governador Luiz Fernando Pezão, do PMDB carioca, uma das principais bases de apoio da presidente.

De todos esses eventos, aquele com maior poder tóxico é a denúncia contra Jaques Wagner, responsável não apenas pela coordenação política quanto pela proteção à figura da presidente. Na quarta-feira, o ministro completa 100 dias no cargo, e vem colecionando algumas vitórias junto aos aliados e à opinião pública, ao agir também como porta-voz de Dilma. Seu prontuário político inspira cuidados.