Desde a redemocratização, nenhum presidente da República teve o apoio integral do PMDB. Qualquer que seja o governo, o partido sempre esteve dividido na seguinte proporção: 60% governo; 20% oposição; e 20% independente. Na sua carta à presidente Dilma Rousseff, o vice-presidente Michel Temer escreveu que 59,9% votaram a favor da aliança com o PT na eleição presidencial de 2014.

Em toda a gestão Dilma, apenas uma única vez a presidente contou com o apoio de 100% do PMDB. Foi quando o então deputado Henrique Eduardo Alves, líder do PMDB, abriu mão da candidatura à presidência da Câmara para apoiar Marco Maia (PT-RS). Em troca, o PT lhe prometeu apoio dois anos depois.

No primeiro teste do governo Dilma, o partido votou unido a favor do projeto de lei que tratava da política de reajuste do salário mínimo entre 2011 e 2015. Era uma mensagem ao Planalto: cumpram o acordo e terão o apoio do PMDB. Caso contrário, assumam as consequências.

Ao perceber, no início deste ano, movimentação comandada pelo Palácio do Planalto para fortalecer o PSD de Gilberto Kassab enfraquecendo o PMDB, o partido uniu-se novamente contra o governo. O resultado foi a vitória de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara e gestos de independência de aliados. O presidente do Senado, Renan Calheiros, devolveu ao palácio a medida provisória que revertia as desonerações da folha de pagamento.

Aos poucos, o governo conseguiu restabelecer o diálogo com o partido, mas não como antes. Hoje, como já admitem diversas lideranças do PMDB, a legenda está absolutamente dividida: 50% é contra o governo e 50% a favor. E não há qualquer liderança capaz de reunificar o PMDB. Nem mesmo seu presidente, Michel Temer. Na Câmara, o pêndulo está mais para a ala oposicionista. No Senado, há mais governistas. Alguns senadores chegaram a criticar o conteúdo da carta do vice.

A destituição de Leonardo Picciani da liderança do PMDB na Câmara foi mais um capítulo importante do distanciamento da legenda do governo. Foi o segundo movimento contra o Palácio do Planalto em apenas 24 horas. A troca trouxe algumas implicações importantes.

Em primeiro lugar, mostra que a maioria do partido na Câmara já optou por um caminho: ficará ao lado de Michel Temer e contra Dilma. Outro aspecto que merece ser considerado é que Leonardo Quintão (MG), o novo líder, tem um perfil mais crítico e independente do que Picciani. Foi por esta razão que o Planalto cogitou o seu nome para assumir a Secretaria de Aviação Civil em substituição a Eliseu Padilha.

Terceiro, o Planalto perdeu um canal institucional de diálogo importante com o partido. O governo não dialoga com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e com o vice, Michel Temer. Sem Picciani, perde o contato direto com a liderança do PMDB. Portanto, passa a depender mais ainda do senador Renan Calheiros, que pouco pode interferir no processo de impeachment conduzido na Câmara dos Deputados.

Mesmo após sua destituição, Picciani continuou tentando reverter a decisão. O próprio Palácio do Planalto tentou ajudá-lo nesse propósito. Temer, em reunião com Dilma, aconselhou-a a não se meter na disputa, sob pena de acirrar ainda mais os ânimos dentro do partido.

O distanciamento do PMDB reforça a necessidade de o governo aumentar seu diálogo com a ala governista do partido e com outros partidos da base aliada, em especial PP, PR, PSD, PDT, PROS, PRB, PMB.