O político brasileiro tornou-se menor do que poderia ser. E sem compreender bem sua função, vê como escassa a satisfação espiritual que tira da realidade. Pela fenda dessa fantasia do que ele pensa que é, e a frustração por saber o que de fato é, entra a corrupção e a nulidade.

Embora pratique a luta livre, não aceita críticas, mas quer exigir dos seus críticos o cumprimento das regras do boxe. Sei que o fato está presente no universo geral da política, mas vale, hoje, especialmente, para o duplo Lula-PT e suas conexões, que enfeitiça a conjuntura no exercício do poder. Pensado para ser superior à sua época, tornou-se um acabado espelho dela. Não percebeu que é pelo sentimento, e não pela ideia, que pertencemos ao nosso tempo. E os sentimentos originais em relação ao seu papel no Estado e na sociedade, fizeram-se, infelizmente, secundários.

Parece cada vez mais um costume, sem base em qualquer lei ou princípio constitucional, que o livre e completo desenvolvimento da personalidade individual do político pode ser exercido sem qualquer restrição sobre todas as instituições e pessoas. Como se sua atividade fosse tão completamente privada a ponto de não levar em conta a vida do outro. E que seu único crime seria ir mal na pesquisa e perder eleição.

Ora, democracia é rigorosamente o regime de governo dedicado aos interesses do cidadão. E a política a forma mais adequada de organizar a conquista e a defesa desses interesses. A vida brasileira não deve nenhum favor a qualquer político. Já está na hora de quem se acha líder parar de ter pena de si mesmo. Quem anda precisando de mais compreensão é o eleitor.

Não temos o direito de querer voltar atrás, mas não estamos conseguindo encontrar a forma de ir adiante. O período militar está presente quando a autoridade arbitrária atemoriza o justo; o mundo de Vargas não passa quando continua impedindo os trabalhadores de enriquecer. E um bom líder não é o que ele representa, ou pensa que é. O que ele se torna é o que ele de fato é. A sociedade e seus costumes, as circunstancias econômicas e políticas, passam, evoluem, mas podem retroceder.

E para entender as novas possibilidades é preciso não ser egoísta, e seguro do que não quer ser de jeito nenhum. Para quem não conseguiu ainda tal façanha, mas pretende se arrepender das bobagens que anda fazendo, vai aqui, pela delicadeza de Jane Austen, uma contemporização: “O egoísmo deve ser sempre perdoado, porque não há esperança de cura”.

Os pontos fortes e fracos de nossos líderes aparecem na relação que estabelecem com os outros de quem vão se tornando espelho. A decepção e a frustração tornam-se fortes quando você não quer ser a imagem do que o outro quer ver. Mas pior é ser o culpado por projetar de você a pior imagem. É a decepção com o político admirado que faz a admiração pela política um espelho partido.

E um dos motivos do desalento geral é a fixação diária no dinheiro como um mel de diletantes, uma forma de autoafirmação e expediente principal da atividade política. Outro, é o uso cotidiano do método simplificador da lógica sindical – campanha salarial, greve até o fim, mais cargo, mais salário, carreira, meus direitos, minha previdência. Duas estradas particulares e estreitas que estão empurrando 200 milhões de brasileiros no abismo por conta da conveniência material dos partidos que já não acreditam no futuro, programas e na força da consciência da realidade para impulsionar a ação política.

Está esgotado o papel do líder que coloca seu êxito pessoal acima da missão coletiva a que se destina. E como não será tolerada a ideia de que causa justa limpa dinheiro sujo permanece uma vigarice a pretensão de falar em superioridade moral quem acha que não importa o meio usado para enriquecer.

O poder é indomável diante do sucesso sem virtude. Aquele que não deseja nem a violência, nem a corrupção e pretende ter verdadeira influência política só tem uma saída: voltar-se inevitavelmente para a virtude.