O presidente da República Popular da China, Xi Jinping. Foto: JOHANNES EISELE/GETTY IMAGES

O líder chinês Deng Xiaoping havia chegado na manhã anterior em Shenzhen, no sul da China. A data era 20 de janeiro de 1992. Naquela visita, Xiaoping estava “inspecionando” a cidade que seria uma das primeiras Zonas Econômicas Especiais do país, levando a China a incorporar uma forma de capitalismo ao seu sistema comunista.

Durante a visita, Xiaoping se dirige ao representante do partido comunista na região, Xie Fei, e faz a seguinte observação: “o Partido só resiste com prosperidade econômica, e a prosperidade econômica só virá de uma relação amistosa com outros países”.

Na prática, o objetivo central do Partido Comunista Chinês é a própria sobrevivência. O motor da sobrevivência é o controle da população. O controle da população vem da satisfação financeira da grande maioria do país.

Consequentemente, o Partido precisa oferecer independência econômico-financeira para a população por meio de crescimento econômico. Esse crescimento econômico depende de uma boa relação com os países compradores dos bens chineses manufaturados e com os países vendedores de matéria-prima.

Isso funcionou tão bem dentro da expectativa do governo chinês que o crescimento econômico desde o início dos anos 1990 tem sido impressionante: uma média acima de 8% ao ano até 2019. Todos os governos até Xi Jinping compreenderam isso. O que muda agora?

Antes mesmo de encontrar a paralisia, os desafios e impactos da pandemia, Xi Jinping já buscava tomar uma ação muito firme, domesticamente, para controlar manifestações democráticas em Hong Kong. Em paralelo com o momento hostil em relação aos EUA e vice-versa, durante o governo Trump, a China já enxergava as relações com o Reino Unido e a Austrália se deteriorarem.

Para um país que depende da discrição na política externa e da tolerância da maioria dos países, Xi Jinping se tornou exageradamente provocador. A diplomacia chinesa apresentava um padrão de sucesso antes de Xi, dado que o mundo pouco debatia qualquer relação entre China e violações de direitos humanos.

Com Xi, a exposição global da China foi malfeita, possivelmente por conta de um excesso de confiança na sua performance econômica. Além disso, a China trabalhou muito mal na fomentação das relações com importantes parceiros comerciais (EUA, União Europeia, Reino Unido), fornecedores (Austrália), e fez opções equivocadas frente a situações geopolíticas (apoio à Rússia).

No campo doméstico, o crescimento do PIB chinês diminuiu significativamente no segundo quarto de 2022, contradizendo as expectativas de recuperação econômica apresentadas pelo governo de Xi. O crescimento anual do PIB chinês para o ano de 2022, que antes era previsto para 5%, deve se aproximar dos 4%, um dos mais baixos das últimas décadas, em meio a um ambiente de cansaço por parte da população chinesa e do Congresso do Partido que se aproxima e deve coroar Xi para um inédito terceiro mandato.

A crise imobiliária chinesa torna-se cada vez mais grave à medida que mais e mais chineses paralisam seus pagamentos hipotecários em projetos inacabados e atrasados ao redor do país. Hoje, cerca de 200 construtoras e bancos já estão arcando com o prejuízo causado por boicotes ao pagamento das hipotecas. O Banco Agrícola Chinês é um dos que mais sofre. Estima-se que apenas 60% dos imóveis comprados em pré-venda entre 2013 e 2020 foram entregues ao seus compradores, e o preço desses imóveis não para de cair.

A forma de investir do chinês de classe média e média alta vinha sendo em imóveis. Isso trazia uma tranquilidade ao governo, pois esse investimento alimentava o processo bancário de hipotecas, aquecendo o setor de construção civil e a economia como um todo. O formato começa a mudar a partir de 2015, quando uma onda de busca por investimentos na bolsa acaba demonstrando uma tendência inusitada até então.

Com o aumento de investimentos no mercado financeiro, empresas de tecnologia surfam na onda da valorização. Algumas empresas tech chinesas são pegas no tiroteio comercial e de sanções entre EUA e China e acabam fortalecendo suas presenças nas bolsas de Xangai e Hong Kong.

Se anteriormente o governo exercia um controle em uma economia estática – investimentos em imóveis, com um ambiente altamente controlável pelo Partido -, isso muda quando os investimentos advêm do mercado financeiro, e o combustível de sucesso ou de fracasso reside na confiança da população sobre o comportamento governamental.

O pior cenário se apresenta para Xi Jinping, pois o escrutínio social é tudo que o Partido não deseja, principalmente se o ambiente econômico deteriorar.

O futuro do mundo depende de mil fatores. Um deles, no entanto, vem da China. A prosperidade chinesa indica um caminho. A decadência indica outro. Estamos na fronteira de grandes mudanças em Pequim, que pode levar o futuro para um ou para outro lado. Isso não só afeta o mundo, como dita a forma de o mundo avançar.

O Brasil, como altamente dependente da China e, ao mesmo tempo, altamente desinformado sobre a China, deve sofrer se algo negativo passar a vigorar do outro lado do mundo.

Autor

  • Thiago de Aragão e sociólogo, Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Johns Hopkins, Pesquisador Associado do Instituto Frances de Relações Internacionais e Estratégicas e Diretor de Estrategia da Arko Advice. Nos últimos anos, Thiago liderou projetos estratégicos para vários clientes nacionais e internacionais. Ao longo dos últimos anos, palestrou em vários países, por meio de convites de governos, universidades e fóruns. Recebeu em 2013 a medalha de honra ao mérito do Governador-Geral do Canada e em 2016 foi escolhido como Jovem Liderança do Ano pelo Governo da Franca.