Rio de Janeiro - Foto inédita de Machado de Assis doada à Academia Brasileira de Letras (ABL) por herdeiros de José Veríssimo (Fernando Frazão/Agência Brasil)

No conto Ideias de Canário, (Páginas recolhidas, 1899) Machado de Assis relata uma interessante história centralizada na figura de um canário, suas ideias, e um homem, Macedo, que conheceu. Este Macedo, o narrador, passeando um dia pelas ruas da cidade, acaba por entrar em uma loja de belchior (artigos antigos e usados) de maneira involuntária, para escapar de ser atropelado por uma carroça. Entre tantas velharias que encontrou naquela visita não programada, avista um canário alegre e saltitante, preso em uma gaiola pequena. Surpreendentemente, o canário e o homem conseguem papear e, nessa prosa, quando questionado sobre o que é o mundo, o canário responde com ‘certo ar de professor’: ‘o mundo é uma loja de belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego; o canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo é ilusão e mentira’.

O homem, intrigado, compra o canário do lojista, leva-o para casa e passa a analisá-lo. O mundo, para o canário, que agora vivia no jardim de Macedo, em um segundo questionamento feito alguns dias depois, passa a ser ‘um jardim assaz largo com repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, ar claro e um pouco de azul por cima; o canário, dono do mundo, habita uma gaiola vasta, branca e circular, donde mira o resto. Tudo o mais é ilusão e mentira’.

Um outro dia, durante a limpeza da gaiola, o canário escapa. Após dias de procura, Macedo encontra-o em uma chácara vizinha, no topo de uma árvore. No diálogo, Macedo percebe que o canário lidava com a situação de forma peculiar. Para a ave, Macedo é que havia sumido nos últimos dias e ele, o canário, tocava sua vida normalmente, sem mudanças. Incrédulo, o homem lhe pergunta novamente o que é o mundo e obtém a seguinte resposta: ‘O mundo é um espaço infinito e azul, com o sol por cima’.

As perspectivas propostas por Machado nesse conto estão relacionadas à mudança de visões de mundo e ideias ao passo em que se acumulam experiências distintas e muda-se de ambiente e espaço. Suas melhores narrativas possuem fortes tons de ironia e assumem posturas demolidoras às ideias deterministas que encantavam a intelectualidade brasileira dos séculos XIX e XX.

Na esfera do pensamento político, de semelhante maneira, a ausência de perspectivas para além da gaiola ao nosso redor nos torna reféns como o canário da loja. Ainda que acreditemos ser os donos do mundo. Ser posto frente a frente com o diferente, com o adversário, com campos de pensamentos distintos aos nossos, como o ato de sair da loja e o escapar da gaiola, amplia o cabedal de informações e perspectivas ao nosso dispor. Torna-nos mais preparados e capacitados para a análise de diferentes situações no mundo e para a lida com o turbilhão de manifestações e informações políticas existentes.

Nos campos democráticos, o direito ao contraditório e à existência de representação política de todas as formas de pensamento é parte fundante dessa estrutura. Portanto, formas opostas de análise de mundo entrarão naturalmente e constantemente em conflito. Conflito que, vale a ressalva, deve ser compreendido como a disputa de espaço no campo político, parte fundamental dessa prática.

As inúmeras culturas, hábitos e características de sociedades distintas formam um cabedal rico de práticas e ideias existentes. Por isso, repito, o conflito é natural e benéfico à sociedade. Na teoria política, compreende-se que a ausência do conflito só seria possível com o silenciamento autoritário de um dos lados. Dessa forma, em um mundo livre, esses embates existem de maneira legítima e devem ser encarados como tal. Sua existência deveria ser compreendida como natural e essencial, parte de um mundo rico de experiências distintas, que geram ideias e posições originais.

Ao longo de nossos caminhos, devemos ter contato com autores e ideias liberais, conservadoras, progressistas, comunistas, libertárias e com todas as demais correntes existentes. De maneira que essa fuga constante da gaiola permita que a construção de nossas posições seja baseada em uma elaboração sadia, plural e, acima de tudo, enriquecedora. A militância cega, que rejeita a priori a diversidade de pensamento e posição e o diálogo, prejudica e limita não apenas o potencial de ideias do emissor, mas a própria essência do sistema democrático como um todo.

A busca pelo escapar da gaiola deveria ser constante. Se o fundador da filosofia como a conhecemos afirmou que a única certeza que teve ao longo da vida foi não ter certeza de nada, quem somos nós na fila do pão? Em um ano de eleições ríspidas, que o canário nos lembre da importância da fuga da gaiola para expansão de nosso repertório. Em um país que, por coincidência, adota o canarinho como mascote de sua seleção, que ele nos lembre constantemente de sua lição.

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