Os fundos de investimento em empresas ESG — consideradas ambiental e socialmente corretas e com boa governança — possuem investimentos que ultrapassam 2 trilhões de dólares -/Shutterstock Leia mais em: https://veja.abril.com.br/coluna/murillo-de-aragao/a-riqueza-dos-principios/

Abordei, em coluna passada, a questão da privatização da guerra, determinada pela reação das corporações multinacionais à invasão da Ucrânia. Agora, avalio o desdobramento do tema: o impacto do conflflito na cultura empresarial ESG (environmental, social and governance). Os fundos de investimento em empresas ESG — consideradas ambiental e socialmente corretas e com boa governança — possuem investimentos que ultrapassam 2 trilhões de dólares. Uma pequena fração desses fundos, menos de 10 bilhões de dólares, investiu em empresas russas. Após a invasão, não investe mais, pois não acredita que possa ser aceita como ESG. É uma mudança relevante.

Porém, a questão vai mais além: a ampliação do conceito de empresas ESG, o que foi percebido por André Clark, um dos mais atentos executivos para as transformações no mundo empresarial, como uma espécie de ESG 2.0. O ponto crítico desse movimento reside no fato de que as empresas devem estar livres de amarras e relações nebulosas com governos, sobretudo com aqueles que desrespeitam as regras democráticas e as boas relações internacionais.

E isso não apenas no que tange à corrupção, como evidenciado na Operação Lava-Jato. Mas também em relação a regimes autoritários, ditatoriais e agressivos que, eventualmente, oprimem minorias e não respeitam a boa convivência com países vizinhos. Como investir em uma empresa que se beneficia de regimes antidemocráticos e que não joga dentro das regras internacionais da boa convivência?

“Vivemos uma mudança cultural que incorpora valores de transparência e governança”

Atualmente, muitas empresas e alguns governos ainda podem ser lenientes com regimes antidemocráticos. No entanto, com a expansão da cultura ESG, parcela expressiva do mundo privado (mercado acionário, fundos de investimento, empresas e consumidores) poderá deixar de aceitar relações políticas controversas no universo de seus investimentos. A expansão do conceito ESG para o campo político pode ser gradualmente relevante, atingindo, por exemplo, fornecedores que operam a partir de países vistos como não adequados politicamente.

É evidente que tais transformações não serão imediatas. Empresas vão continuar a comprar petróleo e insumos de países politicamente controversos. No entanto, as exigências do mundo contemporâneo privado decerto vão se tornar crescentes. O que estamos vendo, com a suspensão internacional de operações comerciais com a Rússia, é uma amostra do poder privado em defesa das relações de confiança.

De fato, em parte expressiva da economia mundial vivemos uma mudança cultural que incorpora valores de transparência, governança e respeito a direitos humanos e ao meio ambiente. Importa entender que o mundo ESG 2.0 veio para ficar. E que suas transformações, ainda que graduais, podem ser inevitáveis quanto a separar quem joga e quem não joga dentro das regras.

O Brasil deve ficar muito atento aos ventos das transformações. Temos nossas próprias guerras, por exemplo, a que enfrentamos contra a desigualdade econômica e social e a favor da sustentabilidade de nossos recursos naturais. Os movimentos que hoje estão em curso no mundo livre também podem nos afetar no curto prazo.

 

Autor

  • Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.

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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.