Presidente da Rússia, Putin, em encontro com forças armadas do país. | Foto: Mikhail Metzel, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP

 

Ao invadir a Ucrânia, Vladimir Putin provocou a privatização da guerra. Tal fenômeno é novo na escala em que ocorre. Com a agressão à Ucrânia, o presidente da Rússia mobilizou contra si, e contra a Rússia, as forças privadas do mundo. Nem na II Guerra se viu algo parecido, fosse por causa das limitações da globalização na época, fosse pela incapacidade de o setor privado se mobilizar.

A reação do setor privado vai além das sanções tradicionais, ao jogar o tema da guerra para uma esfera que, até então, era específica das nações. Há de considerar que o tamanho da reação no mundo privado e na sociedade civil a essa guerra revela a dimensão da traição cultural e de princípios que a Rússia de Putin está praticando perante o mundo.

E a dimensão do engajamento do mundo privado contra a Rússia é único e inédito. Ao invadir o país vizinho, Putin declarou guerra contra Google, Starbucks, Heineken, Amazon, Apple, Facebook, entidades esportivas, Mastercard, Visa e todo o sistema financeiro ocidental, entre outras grandes empresas. E, por tabela, contra os consumidores desses produtos.

Além do setor financeiro e das plataformas sociais, uma coalizão do mundo privado e da sociedade civil está promovendo o cancelamento da Rússia de Putin. A consequência é o recrudescimento de um preconceito que já existia contra a cultura e as expressões daquele país.

A guerra em curso, além do conflito bélico, cria uma batalha de narrativas, e as narrativas precisam de plateia para circular. No entanto, a maior parte da audiência no mundo não acredita na narrativa russa. Provavelmente, nem mesmo a maioria dos russos.

Por isso haverá, de forma crescente, uma repulsa internacional a tudo que se relacionar ao país. E, em consequência, uma crescente desconfiança interna em relação às autoridades locais.

A Guerra do Vietnã foi vencida na opinião pública, que desarmou o ímpeto bélico dos Estados Unidos no conflito. Ainda que a Rússia seja uma sociedade muito mais fechada, as ferramentas da globalização conseguem vencer barreiras e levar informações e questionamentos aos quatro cantos do globo.

Outro fator é que países que tinham diferenças conceituais se uniram e mostraram não apenas rejeição ao conflito, mas apoio à Ucrânia. De maneira absolutamente indesejável, a Rússia uniu, ao menos temporariamente, o mundo. Essa guerra é uma espécie de Guerra dos Mundos, na qual duas culturas entraram em conflito em múltiplas plataformas. Revela uma desconexão por parte das autoridades russas no mundo de hoje.

A guerra está jogando a Rússia para uma liga alternativa e obscura do planeta. Na prática, como disse em texto anterior, Putin pode conquistar territórios e até impedir a Ucrânia de aderir à Otan, mas a derrota russa parece inevitável. Ainda que a guerra termine amanhã, o dano à imagem do país levará anos para ser reparado.

Enfim, o conflito é quase um revival do que ocorreu na II Guerra, só que turbinado pela participação das empresas privadas e pela midiatização, provocada pela mídia e pelas redes sociais. Sendo uma questão cultural, a disputa irá além do conflito, agora localizado na Ucrânia.

 

Autor

  • Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.

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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.