José Cruz/Agência Brasil

Neste momento, meados de fevereiro, a disputa presidencial se dá em torno de duas narrativas. A do ex-presidente Lula (PT) e a do presidente Jair Bolsonaro (PL), que pontificam com suas visões de mundo canalizando, majoritariamente, as preferências do eleitorado. As demais opções aparecem apenas como lampejos de esperanças. No entanto, nem tudo é o que parece. Não se pode afirmar que Lula será o próximo presidente do Brasil, ainda que seu favoritismo hoje seja inequívoco.

Basicamente, por algumas razões. A primeira é que Lula continua a abordar temas que afastam setores do eleitorado menos corporativistas e esquerdistas. Temas que já estão superados e que só agradam ao seu eleitorado cativo, que está longe de ser majoritário. Lula, assim como Bolsonaro, precisa de votos de eleitores que não são afeitos a temas de natureza ideológica e buscam solução para problemas concretos do dia a dia. A segunda razão é que o brasileiro ainda não está tão preocupado com as eleições quanto a imprensa quer fazer crer. Para o cidadão comum, há mais coisas em que pensar neste momento do que no próximo presidente da República. No momento, os desafios da vida são mais urgentes para a maioria do que uma reflexão aprofundada sobre as eleições.

“Para o cidadão comum, há mais coisas em que pensar neste momento do que no próximo presidente”

A terceira questão, pouco destacada na imprensa especializada, é que, nas pesquisas espontâneas de intenção de voto, o ponteiro Lula aponta, em média, para 35%. Já Bolsonaro aparece com 23% da preferência. No tracking que a Atlas Intel promove em parceria com a Arko Advice, a diferença se revelou ainda mais intrigante nas últimas semanas. Lula aparece com cerca de 44%, e Bolsonaro, com cerca de 36%. A distância entre ambos não é impossível de ser superada. Vale destacar que Jair Bolsonaro, mesmo com elevada rejeição, mantém uma intenção de voto relevante que pode ser turbinada por iniciativas do governo.

O quarto ponto que abordo está no fato de que, no momento, ainda é elevado o número de eleitores que não querem nem Lula nem Bolsonaro. Cerca de 14% do eleitorado se divide entre os demais candidatos entre os demais candidatos e aproximadamente 25% do eleitorado ainda não escolheu em quem votar. É um espaço robusto para a ocorrência de surpresas. Em especial se os candidatos se unirem ou um novo nome aparecer na disputa. Também merece atenção o fato de que teremos a propaganda partidária sendo exibida na televisão nos próximos meses. Ainda que o Tribunal Superior Eleitoral tenha proibido o uso do espaço para divulgar candidaturas, ele será utilizado para colocar questões eleitorais que podem afetar o desempenho dos ponteiros.

É fato que, entre março e outubro, ocorrerá uma sucessão de eventos com potencial político relevante. A saber: janela partidária para deputados mudarem de partido; desincompatibilização de ministros e governadores que disputarão as eleições; debate sobre federação de partidos; propaganda partidária no rádio e televisão; e as convenções partidárias. Considerando o calendário, os fatores apontados e a certeza de que o acaso sempre aparece para contrariar as previsões, a corrida eleitoral está longe de definida.

 

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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.