Arko responde: 2022, Lula e o centrão  
Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Foi a versão light de Lula que lhe permitiu vencer em 2002, se reeleger e eleger Dilma Rousseff duas vezes. Mas os seus aliados mais programáticos agora tentam forçar outra direção, trazendo para a pauta temas como privatização, reforma trabalhista e elogios ao títere da Nicarágua, Daniel Ortega.

Lula, contudo, não será nem um nem outro. Não será nem o “Lulinha Paz e Amor”, que buscava a conciliação em 2002, nem tampouco o radical dos anos 1980. Simplesmente porque as eleições presidenciais deste ano não serão iguais a nenhuma outra.

O cenário está bem diferente do de 2018, quando questões da Lava-Jato demoliram o mundo político e abriram espaço para um outsider ganhar a disputa. O Brasil deste ano terá na pandemia de Covid-19 — que insiste em permanecer na cena — e em suas sequelas econômicas os temas preferenciais.Além da existência dessa nova temática nas eleições, há questões de fundo que afetam a própria campanha de Lula.

As campanhas anteriores do PT tinham na engrenagem sindical um poderoso apoio. Azeitados pela contribuição sindical obrigatória, os sindicatos funcionavam como verdadeiras máquinas eleitorais. Assim, as esquerdas lideradas por Lula tiveram, por um bom tempo, o monopólio das ruas. Não é mais o caso.

“Lula terá de se reinventar, mais uma vez, para ganhar uma eleição que, agora, parece fácil para ele”

Outro ponto central refere-se às doações empresariais. A cada campanha, Lula angariava mais apoio de empresários. Boa parte do establishment acreditava que sua eleição seria inevitável e, temerosa de perder acesso e espaço, doava recursos ao PT.

Atualmente, o principal doador é o partido político.As legendas usam os recursos tanto para a disputa presidencial quanto — mais importante — para as eleições de deputados federais. Como se sabe, o tamanho da bancada no Congresso é que determina as verbas partidária e eleitoral. Ainda que o PT tenha um fundo eleitoral de mais de 500 milhões de reais, apostar fortemente na eleição presidencial é temerário, além de existirem limites de gastos.

Fato é que o ex-presidente terá de se adaptar a um sistema político bem diferente daquele em vigor em 1° de janeiro de 2011, quando ele deixou o Palácio do Planalto. Seja pelas sequelas da Lava-Jato, seja pela judicialização da política, as novas circunstâncias contribuem para que, embora ostente hoje uma intenção de voto maior que a soma de todos os seus adversários, Lula tenha de enfrentar uma rejeição significativa, tornando improvável uma vitória sua no primeiro turno.

De 1989 a 2018, período em que oito eleições presidenciais foram realizadas, apenas em 1994 e 1998 a disputa foi resolvida no primeiro turno — em ambas, FHC venceu Lula. Assim, apesar do seu atual favoritismo, Lula terá de se reinventar, mais uma vez, para ganhar uma eleição que, agora, parece fácil para ele.


Autor

  • Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.

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Murillo de Aragão é advogado, jornalista, professor, cientista político e presidente da Arko Advice Pesquisas e sócio fundador da Advocacia Murillo de Aragão. É Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Distrito Federal (UniCEUB), é mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e doutor em Sociologia (estudos latino-americanos) pelo Ceppac – Universidade de Brasília. Entre 1992 e 1997 foi pesquisador associado da Social Science Research Council (Nova York). Foi membro do “board” da International Federation of the Periodical Press (Londres) entre 1988 e 2002. Foi pesquisador da CAPES quando doutorando no CEPAC/UnB. É membro da Associação Brasileira de Ciência Política, da American Political Science Association, da Internacional Political Science Association, da Ordem do Advogado do Brasil (Distrito Federal) e do IBRADE - Instituto Brasileiro de Direito Eleitoral. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2007 - 2018). Como membro do Conselho, foi chefe de delegações do organismo na Rússia , BRICs e Comunidade Européia. Como palestrante e analista político, Murillo de Aragão proferiu mais de duas centenas de palestras, nos últimos 20 anos, em Nova York, Miami, Londres, Edimburgo, São Francisco, San Diego, Lisboa, Washington, Boston, Porto, Buenos Aires, Santiago, Lima, Guatemala City, Madrid, Estocolmo, Milão, Roma , Amsterdã, Oslo, Paris, entre outras, para investidores estrangeiros sobre os cenários políticos e conjunturais do Brasil. Aragão lecionou as matérias “Comportamento Político” e “Processo Político e Legislação” no Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília. Foi professor visitante da Universidad Austral, Buenos Aires e consultor do Banco Mundial. É professor-adjunto da Columbia University (Nova York) . Em 2017, foi convidado para ser professor-adjunto na Columbia University (Nova York) onde leciona a cadeira “Sistema Político Brasileiro”. É autor e autor do seguintes livros: Grupos de Pressão no Congresso Nacional (Maltese, 1992), ‘Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014) e Parem as Maquinas (Sulina, 2017). É colunista de opinião da revista Isto É, e do jornal, O Estado de São Paulo.