Ex-governador de SP, Márcio França (PSB). Foto: Governo do Estado de São Paulo

A operação da Polícia Civil que atingiu o ex-governador de São Paulo (PSB), Márcio França, representa um fato novo que poderá mexer não apenas na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes, mas também afetar a negociação nacional envolvendo o ex-presidente Lula (PT) e o ex-governador Geraldo Alckmin (Sem partido).

Márcio França foi alvo de uma operação de busca e apreensão em uma investigação da Polícia Civil que apura um suposto esquema criminoso de desvios de recursos públicos na área da saúde.

Segundo a Polícia, no suposto esquema as organizações sociais (as chamadas OSs) seriam usadas para desvios de recursos mediante contratos superfaturados para gestão de unidades de saúde.

A operação da Polícia Civil traz desgaste para a imagem de Márcio França, que é um dos articuladores da aproximação do ex-governador Geraldo Alckmin (Sem partido) com o ex-presidente Lula (PT).

Apesar do desgaste para França, ainda é necessário aguardar os desdobramentos das apurações para saber se o caso se tornará ou não um escândalo relevante.

Inicialmente, Márcio França optou por politizar o episódio. Ele responsabilizou indiretamente o governador João Doria (PSDB) ao falar em “operação política e não policial”.

O desgaste de Márcio França pode beneficiar, do ponto de vista eleitoral, o vice-governador Rodrigo Garcia (PSDB), já que Márcio possui penetração do eleitorado tucano, e também ao PT, pois o ex-prefeito Fernando Haddad (PT) disputa com Márcio França a candidatura ao Palácio dos Bandeirantes no campo da esquerda.

A operação também pode respingar nas articulações da aliança entre Lula e Alckmin, já que Márcio é um fiel aliado de Alckmin. Não é por acaso que nas horas seguintes à operação, através de sua conta no Twitter, o ex-presidente postou a seguinte mensagem em solidariedade a França: “Que se investigue tudo, mas com direito de defesa e sem espetáculos midiáticos desnecessários contra adversários políticos em anos eleitorais”.

Além de Lula, Fernando Haddad também mostrou solidariedade ao afirmar em sua conta no Twitter: “Nada contra investigar políticos, muito pelo contrário. O problema é o espetáculo extemporâneo. Não devemos abdicar do princípio da presunção da inocência”.

Histórico aliado de Márcio França, Geraldo Alckmin também se manifestou no Twitter: “Confio em sua reputação e na sua postura. Seu espírito público e sua dedicação nesses anos todos são notórios e louváveis”.

Apesar do desgaste que o episódio gera para Márcio França, o ex-governador só deverá ficar inviabilizado eleitoralmente se algo grave se comprovar. No entanto, fatos novos podem surgir. Na última quinta-feira (6), o Estadão revelou que, grampeado pela Polícia Civil, Fernando Rodrigues de Carvalho, contratado pela organização social responsável pela gestão do Hospital Geral de Carapicuíba, na região metropolitana paulista, ofereceu sem saber aos delegados uma das declarações mais contundentes contra Márcio França.

Em telefonema com a médica Maria Paula Loureiro de Oliveira Pereira, ex-diretora do hospital, em agosto de 2020, ele relatou ter ouvido de Régis Pauleti, outro funcionário da Organização Social (OS) Associação Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Pacaembu, a seguinte frase: “Se o Márcio França ganhar, nós vamos ter a Saúde de São Paulo na nossa mão.”

Outro áudio obtido pela Polícia Civil, mais antigo, foi trocado entre o médico e presidente do clube Penapolense, Nilso Moreira, e o então prefeito de Penápolis (SP), Célio de Oliveira, que se refere a um suposto acerto com França para a criação de um ambulatório na cidade.

A Polícia Civil usa as gravações para ilustrar o que classifica como ‘indícios veementes’ do envolvimento de Márcio França em corrupção na Saúde do Estado.

Apesar do desgaste que a operação provocou, por ora, Márcio França segue como pré-candidato ao Palácio dos Bandeirantes e, conforme mostraram as manifestações do ex-governadores nas horas seguintes à investigação da Polícia Civil, escolherá João Doria como seu alvo prioritário.