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O impacto da possível aliança Lula, Alckmin, Haddad e França em SP – por Carlos Borenstein

A escolha de Alckmin como candidato a vice de Lula (PT) tem o potencial de mexer não apenas com o cenário nacional, mas também na disputa em SP

Geraldo Alckmin e Lula. Foto: Feicon 2003/Divulgação

A pesquisa divulgada pelo instituto Datafolha nesse final de semana sobre as eleições de 2022 ao Palácio dos Bandeirantes mostra vantagem para o ex-governador de São Paulo (SP) Geraldo Alckmin (Sem partido), o também ex-governador Márcio França (PSB) e o ex-prefeito de SP Fernando Haddad (PT).

No primeiro cenário testado, Alckmin lidera. O segundo colocado é Haddad seguido por França e o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos (PSOL).

No segundo cenário, sem a presença de Alckmin e com o vice-governador de SP, Rodrigo Garcia (PSDB) na disputa representando o governo João Doria (PSDB), quem assume a liderança é Haddad. O segundo colocado é França seguido por Boulos, o ministro de Infraestrutura, Tarcísio de Freitas (Sem partido), que deve se filiar ao PL e ser o candidato do presidente Jair Bolsonaro (PL) no Estado, e Garcia.

E no terceiro cenário, sem Alckmin e Haddad, a liderança fica com França. O segundo colocado é Boulos seguido por Tarcísio e Garcia. Outro aspecto importante mostrado pelo levantamento é que o percentual de eleitores “sem candidato” (brancos, nulos e indecisos), varia de 20% a 30%, dependendo do cenário.

CANDIDATOS CENÁRIO 1 (%) CENÁRIO 2 (%) CENÁRIO 3 (%)
Geraldo Alckmin (Sem partido) 28
Fernando Haddad (PT) 19 28
Márcio França (PSB) 13 19 28
Guilherme Boulos (PSOL) 10 11 18
Tarcísio de Freitas (Sem partido) 5 7 9
Rodrigo Garcia (PSDB) 6 8
Arthur do Val (Patriota) 2 3 4
Abraham Weintraub (Sem partido) 1 1 2
Vinicius Poit (Novo) 1 1 1
Brancos/Nulos/indecisos 20 25 30

*Fonte: Datafolha (13 a 16/12)

Apesar da boa posição de Geraldo Alckmin e Fernando Haddad na pesquisa, o ex-governador e o ex-prefeito são os dois pré-candidatos mais rejeitados – 35% e 34%, respectivamente. Em seguida aparecem Boulos (28%), Arthur do Val (22%), Rodrigo Garcia (18%), Márcio França (16%) e Tarcísio de Freitas (16%).

O fato de Alckmin e Haddad terem as maiores rejeições pode pesar, por exemplo, em uma eventual decisão deles em repensarem a condição de pré-candidato, pois num eventual segundo turno, o candidato mais rejeitado tende a ter mais dificuldades de vencer a eleição. Entre os pré-candidatos competitivos, quem possui menos rejeição e, portanto, maior potencial de crescimento são França, Garcia e Tarcísio.

Outro aspecto importante mostrado pelo Datafolha é que a decisão de Geraldo Alckmin em se desfiliar do PSDB combinada com a possível escolha dele como candidato a vice na chapa que será encabeçada pelo ex-presidente Lula (PT) tem o potencial de mexer não apenas com o cenário nacional, mas também na disputa em SP.

Caso opte pela candidatura a vice, teremos uma modificação do cenário em SP. Mais do que isso, uma aliança com Lula abre a possibilidade da construção de uma frente ampla contra o governador de SP, João Doria (PSDB), e o presidente Jair Bolsonaro (PL) no maior colégio eleitoral do país.

A partir da confirmação de que Geraldo Alckmin não será mais candidato em SP, as articulações se voltarão para a construção de uma candidatura de centro-esquerda. Hoje, o campo progressista tem três pré-candidatos postados no tabuleiro: o ex-governador Márcio França (PSB), o ex-prefeito Fernando Haddad (PT) e o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos (PSOL).

Segundo França, a chance de Alckmin ser o vice de Lula é hoje é de “99%”. Hoje, uma união entre França, Haddad e Boulos é improvável. No entanto, caso Alckmin seja o vice de Lula, principalmente se ele se filiar ao PSB, uma composição entre Márcio França e Fernando Haddad é provável. O problema é que nenhum dos dois deseja abrir mão da candidatura própria neste momento.

França, que em 2018 foi derrotado por Doria por apenas 3,5% de diferença entre os votos válidos, numa acirrado segundo turno, argumenta nos bastidores que seu nome possui maior penetração no eleitor de centro, algo que Haddad teria mais dificuldades.

O PT, por sua vez, contra-argumenta com a tese de que na eleição de 2020 pela Prefeitura de SP, após o eleitor petista enxergar que a candidatura do deputado federal Jilmar Tatto (PT) não iria emplacar, ocorreu o voto útil da base do PT em direção a Guilherme Boulos e não em Márcio França. Assim, para setores do PT, caso Haddad não seja candidato, o eleitor do partido poderá votar em Boulos e não em França.

Apesar dessas ponderações, crescer nos últimos dias a possibilidade de uma união entre PT e PSB no Estado. A dúvida é saber quem será o candidato a governador e quem disputará o Senado – França ou Haddad. Caso essa aliança seja selada, terá boas chances de chegar ao segundo turno, principalmente se tiver a chapa Lula-Alckmin como cabo eleitoral.

Porém, dificilmente a esquerda irá unida para o pleito, pois o presidente nacional do PSOL, Juliano Medeiros, tem criticado as negociações entre Lula e Alckmin e poderá, por exemplo, bancar a candidatura de Boulos a governador.

As movimentações visando a disputa de 2022 ao Palácio dos Bandeirantes também se aceleraram em outros campos. Na semana passada, o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles (Sem partido) confirmou que não será candidato senador. Segundo Salles, o ministro de Infraestrutura, Tarcísio Freitas, será o candidato a governador do bolsonarismo. A tendência é que Tarcísio se filie ao PL. O candidato ao Senado na chapa deve ser o presidente da FIESP, Paulo Skaf, que está no MDB, mas deve trocar de partido.

Quem também se articula é o vice-governador Rodrigo Garcia (PSDB). Na semana passada, Garcia encaminhou a aliança com o MDB e a União Brasil. Também existe a expectativa que Garcia atraia o Cidadania, PP, Republicanos, SD e Podemos.

Embora João Doria esteja desgastado – segundo o Datafolha, Doria é avaliado negativamente (ruim/péssimo) por 38% dos eleitores. 37% avaliam o governo como regular e 24% têm uma avaliação positiva (ótimo/bom) – a candidatura de Rodrigo Garcia exerce um poder de atração sobre os partidos por conta do controle que da máquina administrativa que Garcia terá no ano da eleição. A medida em que o vice-governador se tornar mais conhecido, ele tende a atingir uma intenção de voto próxima a avaliação do governo Doria (24%).

Hoje, a tendência é que Rodrigo Garcia dispute uma vaga no segundo turno com o candidato do bolsonarismo – provavelmente Tarcísio Freitas – contra o representante da esquerda/centro-esquerda (Márcio França ou Fernando Haddad).

Porém, este cenário ainda pode sofrer alterações. Mesmo com a aproximação que vendo fazendo em direção a Lula, Geraldo Alckmin ainda poderá ser candidato a governador, principalmente se ingressar no PSD, o que embolaria a eleição em SP.

Um dado importante a ser ressaltado – tendo como base a pesquisa do Datafolha – é que há um voto pendendo para a esquerda em SP. No primeiro cenário, mesmo com Alckmin na disputa, as intenções de voto em Haddad, França e Boulos somam 42%. Na segunda simulação, sem a presença de Alckmin, as intenções de voto em Haddad, França e Boulos atingem 58%. E no terceiro cenário, sem Alckmin e Haddad, as intenções de voto em França e Boulos somam 46%.

Apesar da possibilidade de Haddad/França estarem no segundo turno, temos ainda muitos votos em disputa – conforme mencionado anteriormente, cerca de 1/3 do eleitorado ainda está sem candidato. Além disso, Rodrigo Garcia e Tarcísio de Freitas devem crescer. Isso sem falar em Guilherme Boulos, que deve atrair votos à esquerda, mesmo com uma eventual aliança entre Haddad e França, tendo Lula e Alckmin como cabos eleitorais.

Mesmo com essas variáveis em aberto, uma eventual união entre PT e PSB, unindo Lula e Alckmin no plano nacional, e Haddad e França no plano estadual seria muito competitiva.

Autor

  • Bacharel em Ciência Política pela Ulbra-RS. Analista político da Arko Advice Pesquisas e Consultor político e de Marketing Eleitoral formado pela Associação Brasileira dos Consultores Políticos (ABCOP). Possui MBA em Marketing Político, Comunicação e Planejamento Estratégico de Campanhas Eleitorais pela Universidade Cândido Mendes. Concluiu também os seguintes cursos de extensão: "A Nova Cartografia do Poder, a política brasileira da era digital" (PUC-SP); "WhatsApp em Campanhas Eleitorais (PUC-RJ)"; e "Mídias Sociais e Gestão Estratégica de Campanhas Políticas Digitais (PUC-RJ)".