Artigo publicado originalmente no Broadcast

Estamos no finalzinho de 2021 e, quando olhamos para o ano que vem, parece que entraremos num ano que será dificílimo.

Uma economia que vai patinar, pois vemos um crescimento de no máximo 1% e, certamente, os riscos estão para uma taxa mais próxima de zero. Com um desemprego altíssimo que, no melhor dos cenários, permanecerá estável ao longo do próximo ano. A inflação deve ceder para cerca de 5% no final de 2022, mas ainda ficará rodando em patamar elevado ao longo do primeiro semestre.

As taxas de juros no País devem seguir elevadas, tanto a taxa do Banco Central, que deve atingir 11,5% no começo do próximo ano, quanto o custo de empréstimos e de capital de risco.

Além disso, temos um cenário de mais médio prazo muito ruim com a eleição radicalizada entre dois candidatos com um histórico, no mínimo, desastroso.

Será que nada pode alterar de forma significativa essa expectativa?

Há cerca de 40/50 dias, surgiu um candidato a presidente, até então incerto, que logo quando anunciou sua pré-candidatura já tinha 10% das intenções de voto e em pouco mais de um mês, trackings mostram um crescimento para cerca de 14%.

Candidato que tem demonstrado ser genuinamente de centro, com uma visão liberal no trato dos assuntos econômicos e com boa sensibilidade social e ambiental, além de ter uma história de vida bastante difícil de atacar.

E se esse candidato tiver algo como 20%, ou um pouco mais, em março do ano que vem? Como fica o risco eleitoral? Será o mesmo de hoje com esse radicalismo dos dois lados?

Com o cenário econômico descrito acima, é muito improvável que o atual presidente tenha alguma melhora em sua taxa de aprovação, que já é muito baixa considerando incumbentes em eleições passadas.

Vale notar que nas pesquisas eleitorais, o presidente Jair Bolsonaro é o candidato que aparece com a maior taxa de rejeição, ou seja, o candidato com o maior número de eleitores dizendo que não votariam de jeito nenhum. Vale notar, também, que o perfil do eleitor do presidente é muito parecido com o do candidato mencionado acima, com força nas regiões Sul, Norte e Centro-Oeste, principalmente entre o público de maior renda. Algo que pode representar uma migração significativa de votos, principalmente num contexto de voto útil, onde o outro candidato, no caso, o ex-presidente Lula, também apresenta uma taxa de rejeição elevada.

Nas redes sociais, este candidato já aparece com bastante visibilidade, com número de seguidores próximo dos dois candidatos principais. Além disso, parece consensual entre os analistas políticos que há sim espaço para um candidato da terceira via, mas ainda não apareceu o candidato que conseguirá ocupar este espaço.

E se esse candidato tiver feito boas alianças que tragam uma razoável capacidade no Congresso baseada em seu programa de governo?

E se esse candidato conseguir atrair o partido que atualmente tem a maior bancada da Câmara? Será que esse cenário é impossível ou negligenciável?

E nessa hipótese, qual será o prognóstico mais provável para o país?

Um cenário como este descrito acima pode mudar completamente a trajetória do Brasil.

A começar por olharmos um país que deixará de flertar com o precipício de uma dívida pública impagável ao buscar a sustentabilidade fiscal. Com a estabilidade econômica, poderemos nos debruçar sobre as questões mais relevantes para o nosso país, que vão impulsionar o crescimento de longo prazo e garantir que nossos ciclos de crescimento não sejam voos de galinha, como estamos vendo no desempenho do PIB nos últimos trimestres.

Sem o mínimo de estabilidade política e econômica, não há como colocar a agenda na direção de melhorias estruturais tanto no campo econômico, quanto social, como ambiental.

De fato, estava muito difícil vislumbrar nos principais candidatos atuais qualquer chance de progresso numa agenda mais estrutural, quando o mais provável seria ficarmos presos numa espécie de armadilha de pobreza. Mas, como vimos acima, é possível que tenhamos motivos para ver uma luz no fim do túnel e termino o artigo com esta dúvida para o eleitor: será mesmo que o ano que vem está dado?

*Luiz Fernando Figueiredo é CEO e fundador da Mauá Capital e ex-diretor do Banco Central