LATAM transporta milhões de novas doses de vacinas contra a Covid-19
Vacinação na aldeia indígena Umariaçu, próximo a Tabatinga, Amazonas.

Intimidar com coerção e deboche os que querem se vacinar é pouco inteligente. Quem quer se vacinar não é problema, mas solução. Transtorno é não convencer os cidadãos a se imunizar

A cena parecia animadora. Muita gente acorrendo a um posto de vacinação contra a covid-19. Afinal, é o que o Brasil precisa, um grande número de imunizados.

Em reação à grande procura por vacina, com recorde de aplicações num único dia, a autoridade local promete interditar aquele sistema, chamado de repescagem. A represália contra quem busca imunizante, no prazo estipulado pela autoridade pública, é reprisada por governadores e prefeitos país adentro.

Parece nonsense. As pessoas querem uma vacina, mas o Estado, em vez de facilitar, dificulta e intimida. (Escolher não tem a ver com furar a fila ou tomar a terceira dose, que são fraudes.)

Jornalistas adotaram, sem questionamento e em tom de deboche, o discurso dos epidemiologistas, elevados à categoria de demiurgos. Jornalismo é duvidar, desconfiar. A ciência é imprescindível à melhoria da qualidade de vida, mas isto não coloca pesquisadores num pedestal inquestionável.

Se é verdade que estar vacinado é melhor do que não estar vacinado, é igualmente verdadeiro que as vacinas não são idênticas. É mais provável morrer de coronavírus do que de vacina? Sim, mas esta evidência não elimina a eventual fatalidade provocada por um imunizante.

Alguns argumentos são desprezíveis, como o de que “as pessoas nunca escolheram vacinas antes”. Sim, as pessoas eram submetidas a sangrias e cirurgias sem anestesia. Durante muito tempo, exames que emitem radiação eram a única opção. Assim como houve tempo em que a notícia chegava de navio. Hoje com mais informação, as pessoas podem tomar decisões sobre o que inocular em seus corpos. Um médico consciencioso oferece ao paciente mais de uma possibilidade de tratamento para uma doença. Muitas vezes recomenda um determinado caminho, mas a escolha é do paciente – que tem o direito, inclusive, de adotar a opção mais arriscada.

E se eu for o sorteado?

Do ponto de vista coletivo faz sentido a abordagem estatística. Uma população vacinada tem menor probabilidade de morrer ou ter uma sequela grave do que outra não vacinada. Esta conta não existe no plano pessoal. Se o indivíduo é a 1/1.000.000 vítima do efeito adverso de uma vacina, esta probabilidade salta aos 100% para o desafortunado. Portanto, a escolha de correr risco, por menor que seja, é individual.

Que tal tomar uma vacina que, aplicada largamente num determinado país, mostrou índices de efetividade inferiores a outra utilizada em outro país? E se a vacina provoca uma sequela grave ou pode levar a óbito? E quando as autoridades sanitárias de um país decidem suspender o uso de um imunizante? Quem vai para outro país (que adota restrições à entrada de não residentes) deve relegar sua viagem à loteria dos pontos de vacinação? E se uma fábrica de vacinas está instalada num país de regime autoritário? Uma epidemiologista, em tom irônico, disse que as pessoas não entenderam nada. Que tal explicar, doutora?

Sim, há indivíduos egoístas e aproveitadores neste grupo. Mas existe gente como uma atriz famosa que foi patrulhada pelo medo genuíno em relação a uma determinada vacina. O medo de que você seja a infinitesimal vítima fatal é legítimo.

Um rápido levantamento indica que a maioria dos países não permite ou não recomenda a escolha do imunizante. Mas isto não é regra.

Singapura, Sérvia, EUA (Indiana e Califórnia, por exemplo; no site da CDC, a resposta é genericamente “sim”) e Alberta (Canadá) permitem a escolha. Finlândia, Japão, Inglaterra e Austrália oferecem algumas opções. A Alemanha anuncia que, em breve, a escolha será possível. Obviamente dentro das marcas e quantidade de vacinas adquiridas.

Chama a atenção o site do Ministério da Saúde da Austrália. Há um aviso explícito sobre os “riscos e benefícios” de determinada vacina. Alerta, aliás, repetido em sites oficiais de outros países.

Ciência, por sua natureza, não é definitiva. Ao longo da história, certezas revelaram-se equívocos. Verdades tidas como absolutas passaram a ser condicionadas a variáveis – a astrofísica é um exemplo disto. No caso da covid-19, a cada dia os terráqueos são expostos a informações científicas desdizendo o que se sabia até o dia anterior. Nenhum assombro, já que a velocidade com que os imunizantes foram testados e disponibilizados foi alucinante. Os riscos, aceitos pelos cientistas e autoridades, são inerentes à pressa.

Estorvo são os negacionistas

Em vez de adotarem medidas coercitivas, as autoridades deveriam prestar atenção nos que não tomaram a segunda dose, naqueles que ainda têm dúvidas sobre a necessidade da imunização, na população obrigada por contingência financeira a se expor diariamente em aglomerações e nos negacionistas com suas crenças obscurantistas.

Alguns países lidam com este estorvo, o de convencer os cidadãos a procurar os postos e injetar qualquer imunizante, mesmo que seja um escolhido. Isto é um problema real em nações como EUA (48% imunizados, segundo o Our World in Data, Filipinas (46%), França (40%), Sérvia (39%) e Alemanha (46%).

Por que tanta gente é contra a vacina?” foi o título de reportagem recente da Deutsche Welle. Emmanuel Macron, na França, decidiu proibir a entrada de não vacinados em, por exemplo, cafés e eventos esportivos. Nas Filipinas, Rodrigo Duterte foi menos sutil e ameaçou prender quem não se vacinar.

Em momentos de pânico, a razão titubeia e a emoção medra. Caso não consigam atender a demanda da cidadania, autoridades precisam construir gestão inteligente para esclarecer as dúvidas e oferecer opções. Cidadãos que querem se vacinar não são problema, mas parte da solução.

Caso interesse aos meus 17 leitores. Quando retornava de uma rápida saída de carro deparei-me com uma carreata de negacionistas na avenida principal de Brasília. Ao rapidamente desviar da marcha, avistei dois pontos de vacinação. Como não havia filas e minha vez havia chegado, decidi aproveitar. Entrei e vacinei-me sem me programar. Descobri a marca do imunizante depois de preencher o cadastro. Não abdiquei da máscara nem do álcool gel, e ainda estou cogitando me tornar um eremita.


Cliente Arko fica sabendo primeiro

Assine o Arko Private, serviço Arko para pessoa física, e tenha acesso exclusivo a um canal privado de interatividade e alertas em tempo real, além de relatórios, Lives Exclusivas e eventos especiais com figuras notáveis da nossa rede de contatos.