Imagem: Ananda Migliano/O Fotográfico

Num movimento articulado pelo governador de São Paulo (SP), João Doria (PSDB), o vice-governador Rodrigo Garcia trocou o DEM pelo ninho tucano. A articulação de Doria tem dois significados importantes:

1) mostra a disposição do governador em concorrer ao Palácio do Planalto nas eleições de 2022, mesmo então mal posicionado nas pesquisas, filiando ao PSDB seu vice-governador; e

2) dificulta a possibilidade do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) ser novamente candidato ao Palácio dos Bandeirantes por seu partido. Nas últimas semanas, os chamados tucanos históricos aceleraram os movimentos em favor de uma nova candidatura de Alckmin a governador. Insatisfeitos com a filiação de Garcia do PSDB, existe a possibilidade de Alckmin cair do PSDB. Legendas como PSB, PSL, DEM e Podemos são mencionadas como opções.

A filiação de Garcia ao PSDB gerou fortes reações contra João Doria. Logo após a ida do vice-governador para o PSDB, o presidente nacional do DEM, o ex-prefeito de Salvador (BA) ACM Neto, afirmou que “a postura e os erros de condução política cometidos pelo governador João Doria comprometam a relação histórica que os partidos têm em nível nacional e estadual. Vamos continuar conversando com o PSDB sobre as eleições. Porém, esta conversa não passa pelo governador João Doria. O DEM não tem nenhuma disposição de discutir 2022 com João Doria”.

Neto foi além, ao dizer que houve um erro de cálculo político por parte de Doria, o que, no seu entendimento, “o isola ainda mais. Ele está longe de ser unanimidade no PSDB e amanhã ou depois, ainda que seja escolhido pré-candidato, limita muito o espaço dele de construção política, já que com o aliado histórico ele não terá nem clima para conversar”.

A grande preocupação de ACM Neto com a filiação de Rodrigo Garcia ao PSDB é uma migração dos prefeitos para DEM para o novo partido do vice-governador, esvaziando o DEM no maior colégio eleitoral do país. Aliás, o DEM sofreu perdas importantes no Sudeste. Além de Rodrigo Garcia em SP, o prefeito do Rio de Janeiro (RJ), Eduardo Paes, e o ex-presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (RJ), trocarão o DEM pelo PSD em breve.

Além disso, aliados de Geraldo Alckmin reclamam do ingresso no partido de um nome sem tradição no PSDB para disputar a principal vitrine da sigla no país: o Estado de SP. Por ora, o ex-governador resiste à ideia de concorrer a uma vaga na Câmara dos Deputados, tese defendida por Doria. Para disputar uma cadeira no Senado, teria que negociar com o senador José Serra, que poderá tentar um novo mandato.

Após o PSDB atrair Rodrigo Garcia, Doria deseja viabilizar a filiação do prefeito de SP em exercício, Ricardo Nunes (MDB), que assumirá o cargo devido a precoce morte do prefeito Bruno Covas (PSDB), que estava afastado do cargo para tratar um câncer, e faleceu nesse domingo (16).

Leal ao ex-prefeito Bruno Covas, a tendência é que Ricardo Nunes dê continuidade, ao menos no curto prazo, a administração de Covas. No entanto, caso um entendimento entre PSDB e MDB não tenha sido costurado na capital paulista previamente, atritos podem surgir, pois menos de um ano após reeleger Covas, o PSDB, além de perder seu grande líder da chamada nova geração de tucanos históricos, ficará sem a Prefeitura da capital, que será herdada pelo MDB.

Fortalecida na eleição municipal, a aliança entre PSDB, MDB e DEM, que foi o tripé da coligação que reelegeu Bruno Covas na capital paulista e depois deu suporte a candidatura derrotada de Baleia Rossi (MDB-SP) contra Arthur Lira (PP-AL) na disputa pelo comando da Câmara dos Deputados, terá novos desafios a partir de agora, pois além do PSDB ficar sem o controle da capital mais importante do país, a relação entre João Doria e ACM Neto está tensionada.

No entanto, uma carta deixada por Bruno Covas, escrita dois dias antes de seu falecimento, tem um grande peso simbólico. Na carta, Covas falou que “a solução para nossos problemas só será enfrentada pela via da política, pela via democrática”

Reforçou a força do PSDB paulista do dizer que “em contraposição ao governo federal, que vem desdenhando da vida e da saúde dos brasileiros ao longo da pandemia, o PSDB de São Paulo e seus aliados vêm demonstrando na prática aquilo que é sua vocação: responsabilidade pública, colocar a população, sobretudo a mais pobre, em primeiro lugar, cuidar de gente, fazer um trabalho técnico e baseado em evidências e na ciência, tomar atitudes difíceis e enfrentar as adversidades sempre com respeito, dignidade e defendendo a democracia”.

Covas enfatizou na carta que “receber em nossos quadros o vice-governador Rodrigo Garcia sinaliza exatamente isso. Tenho por ele muito apreço e consideração. Foi decisivo na nossa vitória na eleição passada aqui na Capital e tem sido aliado histórico dos tucanos. Foi aliado do meu avô, foi aliado de Geraldo Alckmin, foi aliado de Serra, ê meu parceiro e aliado, é aliado do governador Joao Doria, sempre esteve do nosso lado, nada mais natural do que se juntar a nós nessa caminhada”.

De acordo com Bruno Covas, Garcia representa “um resgate da história do nosso partido, inclusive para além das razoes que já mencionei, vejo um resgate do nosso manifesto de fundação. No sonho de nossos fundadores, o Partido da Social-Democracia Brasileira, seria o partido capaz de juntar as forças democráticas ponderadas da república na luta pelo bem comum. Rodrigo é um liberal progressista, um parlamentarista, está afinado com nossos valores e ideais. Sua trajetória e sua experiência político administrativa vem contribuir em muito para que nosso partido possa se fortalecer ainda mais e continue a promover as mudanças que a população precisa no estado de São Paulo”.

Conforme podemos observar, a carta deixada por Covas emite sinais de uma construção política em favor da candidatura do vice-governador Rodrigo Garcia, agora no PSDB, ao Palácio dos Bandeirantes. A carta tem o peso simbólico de alçar Garcia a condição de candidato, quebrando resistências ao nome de Garcia junto aos tucanos históricos. Não foi por acaso que Covas fez referência aos nomes históricos do partido e declarou que Garcia também representa essa história.

Embora não tenha falado sobre o tema na carta, o fortalecimento do nome de Rodrigo Garcia, a partir do respaldo de Covas, também acaba fortalecendo a pré-candidatura presidencial de João Doria. A partir do respaldo do PSDB a Garcia, o caminho no partido em São Paulo ficaria aberto para Doria se postar com mais força como presidenciável.