Presidente da República Jair Bolsonaro. Foto: Isac Nóbrega/PR

Em 2005, o governo Lula sofreu com graves denúncias de corrupção, que resultaram na criação de Comissões Parlamentares de Inquérito (do Mensalão e dos Correios) para investigar membros do Executivo e do Legislativo. A oposição, liderada principalmente por PSDB e DEM, não estimulou o impeachment, queria que Lula “sangrasse” até a eleição. Em 2013, às vésperas das eleições para presidente, Dilma Rousseff, foi alvo de diversas manifestações que questionavam, entre outros pontos, a baixa qualidade dos serviços públicos. Os manifestantes queriam serviços com a qualidade do “padrão Fifa”, uma referência aos estádios de futebol que estavam sendo construídos para a Copa do Mundo. A popularidade da presidente apresentou queda acentuada na época e, mesmo conquistando a reeleição, ela sofreu um impeachment e não concluiu o mandato.

Agora, o presidente Jair Bolsonaro experimenta um pouco dos dois ambientes. Foi criada no Senado a CPI da pandemia para investigar a atuação do governo federal diante da mais grave crise sanitária da história do País, com quase 400 mil mortos desde o ano passado. Não se trata de corrupção, mas, potencialmente, a CPI pode gerar problemas políticos para o governo de uma forma geral. Diferentemente de Dilma, Bolsonaro não enfrenta manifestações (em parte, por conta da pandemia). Mas sua popularidade tem sofrido deterioração. Embora Bolsonaro preserve em torno de 30% de “ótimo/bom” nas pesquisas do Datafolha, desde que assumiu o mandato a avaliação “ruim/péssimo” do presidente aumentou 14 pontos percentuais de 30% para 44%.

Em 2006, a economia cresceu 3,7%, porém esse não foi o único fator a ajudar na reeleição de Lula. O então presidente conseguiu contornar a narrativa em torno do Mensalão e a oposição foi ineficiente, para a maior parte do eleitorado, ao tentar emplacar um discurso convincente. Em 2014, aos trancos e barrancos, Dilma superou no segundo turno o candidato Aécio Neves. Mas acabou perdendo a capacidade de diálogo com o Congresso e encarando uma onda de insatisfação popular. Bolsonaro encontrará um País desafiador em 2022: desemprego alto, inflação e um sério problema fiscal.

Apesar disso, Bolsonaro é um dos favoritos entre os presidenciáveis. Ao contrário do que afirmou o também presidenciável Ciro Gomes em recente entrevista (que ele e Lula estarão no 2º turno), o mais provável é que a disputa final seja entre Bolsonaro e Lula. Desde que a reeleição foi instituída, em 1997, todos os presidentes que tentaram conseguiram um novo mandato. Se repetir o feito, resta saber como será um eventual segundo mandato de Bolsonaro. Se terminará como Lula ou como Dilma.

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Vice Presidente e sócio da Arko Advice desde 1999, Cristiano Noronha é Administrador de Empresas e Mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília. Foi professor de Ciência Política e Administração (UPIS e UNB). Cristiano regularmente profere palestras para investidores estrangeiros nos Estados Unidos e Europa. É editor-chefe do “Cenários Políticos”, “Política Brasileira”, newsletter semanal de análise política da Arko Advice, assinado por centenas de bancos, fundos de investimento e empresas nacionais e multinacionais.