Foto: Marcos Corrêa/PR

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta disse, nesta terça-feira (4), na Comissão parlamentar de inquérito (CPI) da Covid, que o presidente Jair Bolsonaro queria que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alterasse a bula da cloroquina para que o medicamento fosse indicado no tratamento da Covid-19.

O pedido foi negado pelo presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, uma vez que a cloroquina não tem sua eficácia cientificamente comprovada contra a covid-19. “Eu estive dentro do Palácio do Planalto quando fui informado para eu subir para o terceiro andar porque tinha lá uma reunião com vários ministros e médicos que iam propor esse negócio de cloroquina, que eu nunca tinha conhecido. Nesse dia, havia sobre a mesa, por exemplo, um papel não-timbrado de um decreto presidencial para que fosse sugerido daquela reunião que se mudasse a bula da cloroquina na Anvisa, colocando na bula a indicação da cloroquina para coronavírus. E foi inclusive o próprio presidente da Anvisa que disse não”, contou.

Ainda de acordo com Mandetta, a única coisa sobre cloroquina que o Ministério da Saúde fez, após consulta ao Conselho Federal de Medicina e aos conselheiros todos, era para o uso compassivo, que é uma utilização do medicamento quando não há outro recurso terapêutico para os pacientes graves, em ambiente hospitalar.

“Como todo medicamento a cloroquina tem uma série de reações adversas, ela tem uma série de cuidados e a automedicação poderia ser muito perigosa para as pessoas”, explicou.

Mandetta comandou o Ministério da Saúde entre janeiro de 2019 e abril de 2020. Ele foi ouvido na condição de testemunha e tem o compromisso de dizer a verdade, caso contrário pode ser julgado pelo crime de falso testemunho.

Mandetta fez uma retrospectiva de como atuou desde os primeiros momentos da chegada do coronavírus ao Brasil. “Esses foram os nossos três pilares: defesa intransigente da vida, SUS como meio para atingir, e a ciência como elemento de decisão”, disse.

O ex-ministro afirmou que o Brasil foi um dos primeiros países, ainda em janeiro de 2020, que questionou a Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre os rumores iniciais em torno do coronavírus. “O ministério se preocupou em fazer, desde o começo, um plano de comunicação sobre a nova doença para informar a sociedade. O princípio básico da gestão de pandemia são as informações, ter plano de transparência para termos credibilidade, evitar fake news.”

Mandetta reforçou que a função do Ministério da Saúde é antecipar, dialogar, dar suporte técnico e fazer as portarias de acordo com a necessidade do sistema de saúde, como as portarias de protocolo de atendimento, protocolo de atendimento respiratório, organização da unidade básica de saúde como porta de entrada, a telemedicina, e tudo foi feito dentro de parâmetros científicos, técnicos, com orientação técnica do Ministério da Saúde.

Testagem e vacinas

Questionado sobre a testagem em massa como método para conter a pandemia, Mandetta disse que em determinado momento foi traçado um caminho pelo Ministério da Saúde para testagem e utilização da atenção primária, para identificar e bloquear ao máximo possível os contágios. “E nós iríamos tratar, via atenção primária, e ampliar a nossa rede de atendimento hospitalar. Nós não tomamos nenhuma medida que não tenha sido pela ciência, e a ciência é essa, é isso que recomendava. Agora, a posteriori, nós vimos pararem muitas coisas e não colocarem outras no lugar. A testagem é uma delas”, ressaltou.

De acordo com o ex-ministro, a pasta tinha uma agenda de iniciativas para o combate da doença e tinha consciência de que para combater um vírus infeccioso como o Covid-19, a única porta de saída era a vacina. “Mas a vacina ainda estava no momento de concepção de fórmula. Em maio, depois de eu ter saído do ministério, é que a primeira vacina começa a ter a fase 2. Eu teria ido atrás como um prato de comida. A gente sabia que a saída era pela vacina.”