A indústria brasileira aguarda a publicação de um decreto para regulamentar o processo de logística reversa do vidro, essencial para aumentar as taxas de reciclagem do produto. De acordo com a proposta de decreto divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), empresas que usam embalagens de vidro, como na indústria de bebidas, precisam organizar a coleta do material usado e transportá-lo até os locais onde os novos potes e garrafas reciclados serão produzidos.

Diferente das embalagens de alumínio, como as latinhas, que são quase 100% recicladas, o reaproveitamento do vidro ainda enfrenta muitas dificuldades no Brasil. De acordo com a associação Compromisso Empresarial para Reciclagem (CEMPRE), apesar de ter sido registrado aumento nos últimos anos, menos da metade das embalagens de vidro são recicladas. O restante vai parar nos lixões ou em aterros sanitários, diminuindo a vida útil dos depósitos de resíduos.

Contudo, o setor de bebidas tem se mostrado preocupado com a edição do decreto da forma que foi colocado pelo MMA. Por um lado, pequenos produtores, como cervejarias artesanais, temem não dar conta de gerir a logística reversa. Do outro, grandes indústrias temem ter os custos de produção muito acrescidos.

Fontes do governo indicam, por exemplo, que a Ambev se mostra preocupada com esses custos, uma vez que é a maior produtora de bebidas do país e se tornaria, portanto, a maior custeadora da logística reversa para reciclagem do material. A gigante brasileira de bebidas faz parte do grupo empresarial Anheuser-Busch Inbev, conhecido como AB Inbev, que detém mais de duzentas marcas de bebidas vendidas em 19 países.

O decreto

Entre 4 de janeiro e 5 de fevereiro, o Ministério do Meio Ambiente manteve aberta uma consulta pública para receber sugestões do setor produtivo para que o decreto seja melhorado antes da publicação. Foram centenas de contribuições e, agora, o MMA analisa o material recebido. A reportagem entrou em contato com a pasta, que não deu nenhuma previsão de quando o decreto, que era previsto para março, deve ser publicado.

Sem a publicação do decreto, podem ser prejudicadas as metas definidas inicialmente. O projeto previa que em 2021 já houvesse crescimento de 25% na reciclagem de vidro e aumento de 50% até 2025.

Logística de transporte

De acordo com empresas e entidades ligadas ao setor, o principal desafio enfrentado na expansão do processo de logística reversa diz respeito a uma questão geográfica. De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias de Vidro (Abividro), as fábricas que produzem as embalagens, e tem capacidade para reciclar, estão localizadas principalmente no litoral brasileiro: em São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Pernambuco e Sergipe. A única exceção é Minas Gerais.

“Quanto maior a proximidade do vidro dessas fábricas, maior a viabilidade. Portanto, existe um desafio para viabilizar a reciclagem do caco que está nas regiões Norte e Centro-Oeste”, explica Caroline Moraes, coordenadora de relações institucionais da Abividro.

De acordo com a especialista, nos grandes centros próximos aos polos industriais, o próprio valor do material serve como atrativo para a reciclagem. “Hoje o setor que produz o vidro tem interesse em comprar o caco de vidro. Há, claro, uma valorização da sustentabilidade, mas há benefício para a indústria. A utilização do caco na produção de novas embalagens torna, inclusive, a produção mais eficiente, emitindo menos gases, o forno funciona em uma temperatura menor, então há economia de energia. O grande desafio é viabilizar a reciclagem do material que está a grandes distâncias”, pontua.

A reportagem também entrou em contato com a Associação Brasileira de Bebidas (ABRABE). De acordo com a entidade, há sim interesse na reciclagem do vidro. A associação gerencia, por exemplo, o projeto “Glass Is Good”, uma iniciativa de logística reversa que une bares, restaurantes, condomínios e empresas de eventos das principais cidades dos estados de São Paulo, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte, Minas Gerais, Rio de Janeiro e DF.

Contudo, a instituição destaca que, para que o sistema seja expandido, é necessário encontrar uma forma de financiamento.

“Para que toda a cadeia coopere em sinergia na reciclagem do vidro, diante da extensão territorial do país, precisamos, primeiramente, de um estudo profundo de viabilidade técnico-econômica do sistema de logística reversa, que envolve justamente todos os setores que fazem parte da cadeia”, diz a nota.