Foto: Hélvio Romero/Estadão Conteúdo

Pouca ou nenhuma dúvida resta sobre o fracasso dos dois primeiros anos do Governo Jair Bolsonaro. Suas principais marcas até aqui são uma economia sem política econômica e uma crise sanitária imensamente agravada por sua ação obscurantista, cujos desdém e indiferença amplificaram o exício de brasilianos.

Marcas que não o impedem de seguir governando. Uma porção recalcitrante de brasileiros garante o apoio político vital ao capitão-mor – noves fora os generais de plantão.

Manter-se até 2022 sem enfrentar um impeachment dependerá de complexa equação formada por variáveis como a pressão das ruas, as Forças Armadas, o STF, o Parlamento & o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira. Variável sine qua non de um penoso processo de deposição, a economia desandou faz tempo. Desemprego alto e carestia são dilacerantes, embora camuflados pela covid-19.

O PT elegeu Bolsonaro

Diante do imponderável, o apego dos brasilianos aos extremos empurra o País de volta ao passado. Há pouco mais de dois anos, em 2018, o Brasil rompeu uma sequência de 24 anos elegendo presidentes da chamada esquerda, dos siameses PT e PSDB.

Aqui n’O Brasilianista, o leitor já leu que a derrocada do PT foi propulsor decisivo à vitória do bolsonarismo. De um lado, um populista da chamada direita e hábil manipulador das redes antissociais arrebanhara um contingente expressivo mas disperso. Do outro, o partido hegemônico do chamada esquerda que cedera à corrupção em níveis recordes e promovera uma inaudita depressão econômica. Esta conjuntura histórica deu vazão à antipolítica. Antipolítica que, como sinônimo da negação da política, inexiste, mas convenceu eleitores crédulos.

Tivesse a chamada direita abocanhado a Presidência da República por meio de um político tradicional, e não de um sicário, a alternância longeva do poder seria uma consequência natural. Hoje, o indigitado que ora nos governa afasta quase toda a vida inteligente e sensata nos 40% de brasilianos que não é apoiadora de primeira hora dos extremos, mas que é decisiva para o sucesso de um dos lados.

Bolsonaro pode eleger o PT

Outros 30% são adeptos da chamada esquerda, hoje convergida em torno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Seu retorno à cancha eleitoral ainda depende do tribunal político e instável no qual se converteu a Corte Máxima do Judiciário pátrio. Caso o humor de biruta dos sufetas supremos assegurem seu direito de disputar a Presidência da República, Lula terá em Bolsonaro seu principal cabo eleitoral. O capitão-mor serviria de catapulta ao PT. Uma retribuição igualmente involuntária, como foi o apoio do PT a Bolsonaro em 2018.

A desconstrução de Bolsonaro é autóctone. Sua inapetência pelo jogo democrático vem à tona a cada ação, como a tentativa de enquadrar as Forças Armadas com a demissão em massa do alto comando militar. Bolsonaro se move pelo caos. Com seus 30% de seguidores luta para promover a desordem e perpetuar-se pela força.

Lula, por sua vez, precisa aplainar a desconfiança que o PT semeou a mancheias. Entre as arestas sinistras, o intervencionismo econômico, o apoio a ditaduras e a recorrente tentativa de controlar a mídia, aspecto este esquecido diante da truculência boçal do presidente da República com jornalistas. Paira ainda sobre os companheiros o documentado conchavo com a corrupção, evidenciado pelo Mensalão e pela Lava-Jato – sacramentado por diversas instâncias do Judiciário e ainda não negado pelo Supremo Tribunal Federal, apesar dos esforços do xerife Gilmar Mendes.

Diferente de Bolsonaro, que prefere atropelar em vez de agregar, Lula é político sofisticado. Aprendeu na lide eleitoral. Perdeu três eleições sucessivas. Refletiu, infletiu e reconstruiu sua trajetória. Venceu, então, quatro eleições consecutivas, sendo duas com uma candidata que nunca se consagraria presidente da República sem o empuxo lulista. Como mostra de habilidade incomum, conduziu uma eleição da cadeia. Seu inexpressivo candidato conquistou 31,93% dos votos do eleitorado contra 39,23% do vitorioso.

Desconstruindo a Lava-Jato

O pleito presidencial está anos luz destes inéditos tempos pandêmicos que vivenciamos, mas os contornos estão sendo moldados. Bolsonaro empenha-se pelo confronto e o dissenso. O centro amorfo e anódino move-se para forjar um candidato. Empreitada difícil, pois candidatos majoritários num país diverso e disperso como o Brasil não se inventam. O moderado desconhecido, que evitaria a polarização entre extremos, é ainda uma quimera.

Diante do quadro hodierno, abre-se para Lula uma travessa de oportunidades. Com o salvo-conduto provisório dos inconstantes juízes do STF, ele parte agora para ampliar seus 30% de eleitores cativos, ação também antecipada n’O Brasilianista. De saída, reinaugurou sua verve de entrevistado, conversando com jornalistas de todos os matizes, mundo afora e Brasil adentro, incluso os que o criticaram.

O companheiro-mor também conta, para a nova empreitada, com o beneplácito de boa parte dos jornalistas e analistas políticos. O jornalismo tradicional é a garantia inseparável da democracia. Onde inexiste jornalismo livre a democracia fenece. Isto não significa que jornalistas são neutros. Quem conhece as redações sabe que a maioria flerta com a chamada esquerda. Por quê? Como diria o Chicó, de Suassuna, não sei, só sei que é assim.

Nesses tempos bolsonaros, com a ameaça golpista rolando pelas largas rampas do Palácio do Planalto, a vocação à sinistra da mídia brotará com vigor renovado – talvez como em 1989, quando Lula era aplaudido pelos periodistas. Uma das principais investidas será a desconstrução da Lava-Jato como a primeira operação policial que flagrou e prendeu ricos, brancos e poderosos envolvidos com corrupção bilionária.

Corrupção, um mal menor

Simultaneamente, colunas e artigos passam a constranger os votantes em Bolsonaro no segundo turno do pleito de 2018. Como se a opção em Fernando Haddad não representasse outro tipo de retrocesso, com o abono à corrupção sistêmica e à lambança da economia arrasada (desemprego + inflação + depressão). O segundo turno de 2018, na verdade, representava a atávica aposta nativa nos extremos, que se alimentam mutuamente às custas do eleitor que rejeita a moderação e o equilíbrio. A vitória de um ou de outro provoca tensão permanente, onde partes expressivas do eleitorado expõem a radicalização à flor da pele, bloqueando a tolerância e o diálogo.

O imponderável no pleito que se avizinha é a radicalização de Bolsonaro. Sem desenvoltura aparente para ampliar seu apoio popular, a economia patinando e o coronavírus exterminando vidas, o presidente da República deve partir para seu Plano A, insuflar o caos na tentativa de ser chamado para liderar uma solução de exceção – vã, pois se os generais assumirem o poder não serão liderados por um “mau militar”, nas palavras do ditador Ernesto Geisel.

A eventual ascensão de Lula em pesquisas de opinião tende a precipitar ainda mais as inclinações golpistas de Bolsonaro. A água na fervura viria de duas formas. A conversão de Lula como candidato não extremista com apoio de setores expressivos do centro ou a expectativa de sucesso eleitoral do moderado desconhecido. Neste cenário, bastante indefinido, 2022 será a prorrogação de 2018, pois agora, no intervalo, jogo está empatado.

* Itamar Garcez é jornalista