Foto: Divulgação/ClimaInfo

Apesar de a China ter diminuído os investimentos feitos na América Latina em 2020, a região não deixa de ser estratégica em outros sentidos. Afinal, os interesses do gigante asiático não são medidos apenas por investimentos ou ausência de investimentos, mas também por ações mais sutis, estratégicas não tão públicas, que passam despercebidas do grande público.

Os objetivos de um país em relação a outros não são estáticos. Mesmo com a histórica postura chinesa de planejamento a longo prazo, o fato de o país ainda sofrer com a incompreensão cultural e política da América Latina exige que certos planos mudem ou sejam abandonados. Para muitos governantes da região, a China promete muito mais investimentos do que de fato entrega. No entanto, o que entrega acaba sendo muito superior ao que qualquer outro país entrega, inclusive os Estados Unidos.

Nesse contexto, a República Popular da China tem, grosso modo, quatro objetivos principais em relação aos países da América Latina e do Caribe:

1- Criar mais mercados (comprando e vendendo)

O primeiro objetivo chinês na América Latina é o mais óbvio e visível de todos: gerar mais mercado para seus produtos e suas empresas, bem como adquirir recursos naturais e commodities no melhor valor possível e dentro de um fluxo contínuo com o menor risco econômico, político e diplomático possível.

Nesse ponto, a China vem obtendo um sucesso considerável, principalmente se observarmos que a participação dos EUA na balança comercial de diversos países vem diminuindo, enquanto a da China aumenta ano após ano.

No setor energético, a China já se tornou um importante ator no Brasil. Tem relevância também na área de logística, não só no Brasil, mas também no México, Peru e Colômbia, além de Argentina e Equador. No Chile, o país aumenta sua participação e influência no setor mineral a cada dia.

2- Gerar uma China-dependência

O segundo macro-objetivo da China é o de geração de dependência econômica e comercial para com vários países da região. Do ponto de vista econômico, as linhas de financiamento oferecidas pela China acabam se tornando excelentes negócios para Pequim, já que a forma de pagamento por parte dos países latino-americanos que necessitam dessas linhas de crédito acaba envolvendo pagamento por commodities e/ou outras produções de quem toma os empréstimos.

A Argentina prometeu pagar parte dos seus empréstimos com o país com trigo e carne. O mesmo fez a Venezuela com o petróleo – o problema é que a PDVSA, produtora estatal, não está conseguindo produzir o suficiente para pagar essa dívida dessa forma.

Mas é importante entender a distinção entre dependência econômica e dependência comercial.

A dependência econômica gira ao redor das linhas de crédito que são oferecidas em negociações governo a governo (como nos casos venezuelano e argentino), assim como nas negociações entre governo e setor privado (linhas de crédito para viabilizar expansões de fábricas e cadeias logísticas que, geralmente, envolvem a participação de empresas chinesas como parceiras em joint ventures que utilizam essa capitalização para expandir). Embora no Brasil as linhas de crédito não sejam destinadas diretamente ao governo federal, o volume destinado ao setor privado é relevante. A Petrobras, por exemplo, fechou no início de fevereiro um novo financiamento com o China Development Bank no valor de US$ 5 bilhões.

A dependência comercial, por outro lado, ocorre de forma mais orgânica e está presente claramente na relação que o Brasil tem com a China. As exportações do agronegócio e do minério de ferro brasileiros são altamente dependentes da China, que é a principal compradora desses produtos. Isso aumenta os riscos para o setor, já que a manutenção do sucesso dos principais itens da pauta de exportação do Brasil depende mais das decisões tomadas em Pequim do que das decisões tomadas em Brasília.

3- Influenciar para mudar percepções (e a vacina contra a COVID tem sido um ativo e tanto para isso)

Os dois primeiros pontos (mercado para empresa e relação comercial e financeira profunda) acabam gerando um subproduto que se torna o terceiro macro-objetivo chinês na América Latina: influenciar políticas públicas nacionais e a política externa de países, para que fortaleça a imagem, percepção e objetivos da China na esfera internacional.

Um exemplo muito claro desse terceiro ponto está fora da América Latina. Em 2020, Arábia Saudita, Emirados Árabes, Catar, Irã, entre outros, firmaram uma carta de apoio à China em relação à postura do governo chinês na província de Xinjiang, em cima do tratamento dado aos chineses muçulmanos uigures.

Enquanto países ocidentais, ressaltam atos de violação de direitos humanos na província, outros interpretam como medidas de segurança nacional. O curioso foi o fato de países islâmicos se colocarem juntos, inclusive com Arábia Saudita e Irã (inimigos históricos), assinando uma carta defendendo a China em uma questão que afeta muçulmanos chineses.

O aumento da influência chinesa no Oriente Médio, principalmente nos países mencionados, é notável nos últimos anos. Enquanto a China passou a ser o principal importador de petróleo saudita e parceiro na exploração de urânio, o país também aumentou substancialmente sua relação com o Irã, oferecendo linhas de crédito na base do “commodity backed lending”.

Importante ressaltar que a diplomacia da vacina aplicada pela China também tem um peso muito grande no processo de moldar a atuação e percepção internacional de países receptores da vacina em relação a temas gerais chineses.

Na América Latina, vários países estão recebendo a vacina chinesa, fazendo com que o tom belicista de alguns presidentes seja diluído na necessidade de obter insumos. O exemplo mais claro disso é o do Brasil, com o presidente Jair Bolsonaro.

A desorganização em obter vacinas à tempo de outros fabricantes, fez com que as negociações desempenhadas pelo governador de São Paulo, João Dória, com a Sinovac, fabricante chinesa da CoronaVac, acabasse sendo a tábua de salvação para que o Governo Federal pudesse vacinar a população de fora do Estado de São Paulo. Para isso, Bolsonaro precisou pedir diretamente a Xi Jinping um acréscimo no volume de insumos necessários para que a vacina fosse produzida em números suficientes no centro de produção do Instituto Butantan em São Paulo.

Naturalmente, como não existe almoço grátis, Xi Jinping foi capaz de amenizar o ímpeto do Presidente Bolsonaro em excluir a empresa chinesa de tecnologia, Huawei, da participação no leilão do 5G, por conta dos riscos de segurança e privacidade atribuídos a ela. Em 2020, por conta da relação próxima com o ex-Presidente Donald Trump, Bolsonaro deixava claro que a Huawei representava um risco à segurança do 5G brasileiro.

Com a saída de Trump e a chegada de Biden e, ao mesmo tempo, a necessidade em obter vacinas diante da tragédia de gestão da COVID-19 no Brasil, Bolsonaro flexibilizou sua postura em relação à Huawei e assim obteve insumos necessários para o CoronaVac.

Em março, o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Elcio Franco, enviou uma carta ao embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, para “averiguar a possibilidade” da compra de doses da BBIBP-CorV, vacina de eficácia média de 79% da Sinopharm. No documento, o representante do governo brasileiro também pede para que a entrega das doses, se possível, ocorra ainda no primeiro semestre.

4- Melhorar a imagem da China, via governos ou não

Para que o ciclo estratégico chinês na região fique mais eficiente, Pequim precisa trabalhar sua imagem perante o público dos países com o qual se relaciona. Assim, melhorar a imagem da China por meio de inúmeras organizações (governamentais e semi-governamentais), é um processo primordial para se encaixar nos pontos mencionados anteriormente.

Em países com tomadas de decisão centralizadas no governo federal, as relações com a China se dão primordialmente pelas vias diplomáticas e oficiais. Em países descentralizados, onde as relações envolvem empresas privadas, governos municipais, associações, entre outros, a China foca em organizações semi-independentes para trabalhar a imagem do país, a fim de evitar desgastes por conta de percepções consideradas negativas por Pequim.

Essas são, grosso modo, as quatro táticas que compõem a estratégia chinesa na região. Duas dessas quatro categorias são diretas e facilmente compreendidas: expansão nas relações comerciais e oferta de crédito/financiamento, que pode ser paga com commodities (ou outros favores a Pequim, como a facilitação para a construção de um centro de observação espacial na Patagônia argentina, por exemplo).

As duas estratégias subsequentes são subprodutos das duas primeiras: o uso da dependência comercial e financeira para alinhar a região diplomaticamente e abrir oportunidades em outras áreas internamente; o fortalecimento da imagem e da percepção da imagem da China entre tomadores de decisão.

A estratégia chinesa continuará de vento em popa após o fim da pandemia de COVID-19. A diplomacia da vacina tem um limite. No entanto, a herança para a China poderá ser melhor do que o esperado, já que todos os laços que estão sendo criados e ampliados com vários países em um momento como esse tendem a perdurar para além da crise do novo coronavírus.