Fundo partidário: Possibilidade de acordo entre governo e Congresso
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

A semana em Brasília começou com uma grande mudança na Esplanada dos Ministérios, com a deflagração de uma reforma ministerial. No total, houve troca de comando em 6 pastas nesta segunda-feira (29). O estopim foi a demissão do agora ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que vinha protagonizando uma série de embates políticos tanto com deputados como com senadores.

No final do dia, foram feitas as seguintes mudanças:

  1. Com a saída de Araújo, o Ministério das Relações Exteriores passa para o embaixador Carlos Alberto Franco França;
  2. O Ministério da Defesa passa do general Fernando Azevedo para o também general Walter Braga Netto;
  3. Braga Netto deixa a Casa Civil, que agora está sob o comando de Luiz Eduardo Ramos;
  4. O Ministério da Justiça e Segurança Pública, que antes pertencia ao advogado e pastor André Mendonça, recebe o novo comando do delegado da Polícia Federal, Anderson Gustavo Torres, que antes ocupava a Secretaria de Segurança pública do Distrito Federal;
  5. André Mendonça volta para a Advocacia-Geral da União;
  6. O general Luiz Eduardo Ramos deixa a Secretaria de Governo da Presidência da República, dando lugar para que fosse nomeada a deputada Flávia Arruda (PL-DF); 

Guedes e Centrão saem fortalecidos

A ascensão de Flávia Arruda a ministra foi recebida como um aceno de Bolsonaro ao Congresso. A deputada é um nome de confiança do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Além disso, o Centrão vinha reivindicando há meses que Bolsonaro abrisse mais espaço no governo para aliados políticos.

 “As alterações tendem a melhorar o relacionamento do governo com o Congresso e com a equipe econômica”, avaliou Cristiano Noronha, cientista político da Arko Advice em live exclusiva para clientes.

Flávia ganhou a confiança do governo ao presidir a Comissão Mista do Orçamento (CMO) de 2021 e, assim como Lira, é tida como defensora da pauta econômica de Guedes. 

“Flávia Arruda é uma parlamentar assumindo um ministério. Foi presidente da CMO e foi um nome bancado por Arthur Lira. Sem dúvida nenhuma essa indicação da Flávia Arruda acaba tendo um impacto positivo na relação entre Executivo e Legislativo”, conclui Noronha. 

De acordo com o analista Lucas de Aragão, “Flávia tem uma entrada muito boa nos partidos do Centrão e tem apoiado Paulo Guedes nos últimos dois anos”. Segundo Aragão, “o Ministério da Economia vai ganhar muito com Arruda”. 

Clima ameno no Itamaraty

A própria saída de Ernesto Araújo é um fator que pode melhorar a relação entre Congresso e governo. O chanceler era apontado por parlamentares como responsável pela baixa aquisição de vacinas pelo governo brasileiro. Componente da chamada “ala ideológica”, Araújo vinha se indispondo com a embaixada da China no Brasil. O país asiático é um dos principais exportadores de imunizantes contra a covid-19.

Na visão do analista e correspondente da Arko em Washington, Thiago de Aragão, Carlos Alberto França, novo ministro das Relações Exteriores, “vai facilitar muito a forma que o Itamaraty lida com outros ministérios (…) França tem uma postura mais diplomática, silenciosa do que Araújo”. 

Ministério da Justiça e Supremo Tribunal Federal

A mudança no Ministério da Justiça pode ter sido realizada para que o agora ex-ministro André Mendonça seja futuramente nomeado para o Supremo Tribunal Federal (STF). 

Segundo Cristiano Noronha, “Mendonça estava como um dos cotados para suceder o ministro Marco Aurélio no STF (…) Então é possível que essa alteração na pasta jurídica do governo seja temporária para que, em um futuro próximo, haja uma nomeação para o Supremo”.

Relação com as Forças Armadas

Após a oficialização das alterações, Comandantes das Forças Armadas se reuniram para definir se deixariam seus cargos no governo em conjunto. No entanto, até o momento, nenhuma ação foi confirmada.

Durante a live, Murillo de Aragão, CEO da Arko Advice, disse não ver uma ruptura do governo com as forças armadas nas mudanças desta segunda, mas que fica claro que as forças armadas têm muito claro seu papel constitucional. “É um estranhamento, mas que não deve gerar desequilíbrio institucional”, pontuou.

Colaborou: Pedro Costa Teodoro