Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez, nesta quarta-feira (10), um pronunciamento à imprensa para comentar a decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de anular as suas condenações pelo ex-juiz Sérgio Moro, no âmbito da Lava-Jato.

Na prática, a decisão deixou o ex-presidente sem impedimentos para concorrer às eleições presidenciais de 2022. Apesar do ato ter sido visto como um sinal da candidatura do ex-presidente em 2022, Lula preferiu não confirmar sua indicação. “O partido vai pensar quando chegar o momento se vai ter candidato ou se vai fazer parte de uma frente ampla. Isso só vai acontecer no ano que vem, perto do meio do ano.”

Questionado sobre a possibilidade de fazer parte uma “frente ampla”, Lula ponderou que seria necessário manter diálogo com setores do centro e da direita, e que a articulação das esquerdas já é uma realidade. Apesar disso, criticou Luciano Huck, Ciro Gomes e João Doria e demonstrou crer que o PT é a única opção contra Bolsonaro em 2022.

“Ciro Gomes sabe quem eu sou. Ele precisa assumir a responsabilidade de ser um homem de 64 anos de idade. Se quer ser presidente desse país tem que aprender a respeitar as pessoas. Se ele continuar com grosserias, não terá apoio da esquerda nem vai conquistar a confiança da direita”, disse. “Essa história de frente ampla é uma história que é muito levada a sério pela imprensa. Se não quer polarização PT-Bolsonaro em 2022, vota logo no PT e resolve”, completou.

Quando indagado sobre uma publicação de Rodrigo Maia (DEM-RJ), em que o ex-presidente da Câmara o elogiava, Lula entendeu mal as colocações, achando ser uma crítica, e reprovou Maia por não ter dado prosseguimento ao impeachment do presidente Jair Bolsonaro.

“Se for preciso conversar com Rodrigo Maia, eu converso. Eu não tenho preconceito ideológico. Se Maia tá resolvendo construir uma nova relação, ainda que não tenha feito o que precisava fazer [referência ao impeachment], arrumar novos parceiros, ele não tenha dúvida que eu estou aberto a conversar com qualquer pessoa que esteja disposto a conversar sobre democracia, vacina e emprego. Se ele quiser dar um passo a mais para conversar em como tirar o Bolsonaro, eu estou mais feliz ainda”, declarou.

Polarização

De acordo com Lula, o PT vai continuar usando a polarização como estratégia política. “O PT não pode ter medo de polarizar, mas sim de não polarizar e ficar esquecido. A polarização é importante, só não pode radicalizar com ódio e não aceitando resultado”, argumentou.

Ele criticou as falas do presidente, e a atuação do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, em relação à pandemia. Disse que o governo deveria ter um comitê de crise, com cientistas do Butantan e da Fiocruz para ajudar na tomada de decisões com base na ciência. “Muitas mortes poderiam ter sido evitadas”, disse. Em outro trecho atacou: “Esse país não tem governo, não cuida da economia, não cuida do emprego, não cuida da saúde e do meio ambiente. Então cuida do que?”

Economia e relação com o mercado

Durante a entrevista, Lula disse não entender porque a possibilidade de sua eleição gerou reações ruins no mercado nos últimos dias. Mas, ao mesmo tempo em que tentava se mostrar aberto ao diálogo com o setor produtivo, o ex-presidente fez críticas e demonstrou distanciamento.

“Temos que conversar com os empresários para entender onde está a loucura deles de não perceber que, se eles quiserem que a economia cresça, é preciso garantir que o povo tenha emprego e renda. Ou será que vamos ficar refém do ‘deus mercado’?”

Ele lembrou de que o empresário José Alencar foi seu vice, no que chamou de “aliança entre o capital e o trabalho”. “Foi o momento mais promissor da história democrática desse país”, disse Lula.

O ex-presidente se disse contra a autonomia do Banco Central e criticou a agenda de privatizações, defendeu o investimento público e disse que o governo precisa aplicar dinheiro em infraestrutura para incentivar o crescimento econômico.

Contribuiu: Daniel Marques Vieira