Presidente da República Jair Bolsonaro. Foto: Isac Nóbrega/PR

Na última semana de fevereiro, após o anúncio turbulento do governo sobre a mudança de comando na Petrobras, os investidores estrangeiros retiraram R$ 9,2 bilhões da Bolsa de Valores de São Paulo (B3). Uma reação que refletiu o temor de interferência na política de preços da companhia. Antigos integrantes da equipe econômica de Paulo Guedes criticaram a substituição de Roberto Castello Branco pelo general Joaquim Silva e Luna. Não por haver dúvidas quanto à competência do indicado, mas pela forma como a troca foi realizada. Já no mercado, a avaliação é de que não faz sentido colocar um general à frente da empresa.

Em seguida, o presidente Jair Bolsonaro fez alguns gestos simbólicos, tanto para acalmar o mercado e sinalizar que não pretende intervir na Petrobras, quanto para conter o mal-estar causado entre os integrantes da equipe econômica. Ao lado do ministro da Economia, Paulo Guedes, ele entregou ao Congresso Nacional uma medida provisória que abre caminho para a privatização da Eletrobras e um projeto de lei que aponta para a desestatização dos Correios. O mercado é pragmático e sensível (além de especular muito, claro). Se há rumor de que uma empresa ou um setor terão seu ganho comprometido por algum fator, ele reage. Vende a ação. E o impacto é a queda do preço do ativo. Foi o que aconteceu com a Petrobras. Diante do temor de interferência, com eventual redução de resultados financeiros, a empresa perdeu bilhões em valor de mercado. O episódio impactou ações também de outras estatais. Mas o mercado exagerou na reação. Tanto é que depois houve correções.

De forma geral, o brasileiro gosta de Estado forte, presente na economia — um reflexo da cultura portuguesa. Recebemos um Estado pronto em que a sociedade é subalterna a ele e a classe política cultiva esse pensamento, patrimonialista e paternalista. Por isso é tão demorado e custoso avançar com agendas reformistas, que acabam deixando a desejar. Por isso somos um país em permanente reforma. Nossa Constituição, de 1988, já tem 108 emendas. E vêm mais por aí. Apesar de eleito com uma plataforma liberal, o liberalismo do governo tem limites. Nesse sentido, o próprio presidente já afirmou que, embora mantenha seus planos de ir adiante com a agenda de privatizações, “não é tudo” que será privatizado. Há “símbolos” desse Estado patrimonialista que deverão continuar por muito tempo sob o controle estatal. Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e Petrobras são alguns deles.

Texto publicado na IstoÉ dia 05/03/2021