Três vezes candidata, Marina Silva indica ter desistido de se tornar presidente da República. Ambientalista respeitada mundo afora, a ex-ministra é mais uma a condenar a contenda inconciliável entre bolsonaristas e petistas, as piores opções para 2022

Itamar Garcez *

O pior cenário para a corrida presidencial de 2022 é a vitória do bolsonarismo ou do PT. Mesmo para os que consideram que há virtudes num ou noutro, a reeleição do capitão-mor ou a volta do petismo ao poder central preservará o extremismo raivoso, com a intolerância e a intransigência campeando país adentro. Nestas duas possibilidades reais, o ódio, que embota a razão e bloqueia a convivência civilizada entre diferentes, vicejará por mais quatro anos.

Em entrevista neste último fim de semana, a ex-ministra Marina Silva condenou a hodierna polarização política. “O pior dos mundos é criar a velha polarização que existia, entre PT e PSDB, e deixar o tempo todo o brasileiro em terceiro. Agora seria a velha polarização, mas entre Bolsonaro e Lula ou PT”, disse ela ao jornalista Pedro Venceslau. “Agora é o momento de a sociedade assumir o primeiro lugar”.

A ambientalista não é a primeira que considera a polarização entre bolsonaristas e petistas nefasta para o Brasil. Lê-se, com mais frequência, quem aponte a necessidade de quebrar este duelo pernicioso como condição sine qua non para que o País aplaque a ira que conduz os brasileiros desde as grandes manifestações de 2013.

Golpe ou autogolpe

Dificilmente alguém duvidará que o presidente Jair Bolsonaro é extremista, liderando a chamada direita a flertar com a ruptura institucional. 37 anos após a redemocratização, nunca a possibilidade de golpe ou autogolpe foi tão aventada. Não à toa.

O capitão-mor e seu filhos já deixaram isto muito claro. Ao mesmo tempo, num governo repleto de milicos parece cada vez mais evidente que remover Bolsonaro significará confrontar as Forças Armadas, numa escala que parece crescer toda a vez que um novo general assume um cargo civil.

Gente que conhece o métier não vê a possibilidade de golpe militar, caso dos ex-presidentes Michel Temer e Fernando Henrique Cardoso – este último com mais reticência. Ambos reconhecem, porém, que há ameaça à democracia.

O ex-ministro da Defesa descarta totalmente esta hipótese. “Não há a menor possibilidade de ocorrer um golpe. As Forças Armadas não estão nada dispostas a isso. Estão absolutamente fechadas com a Constituição. E existem os ‘remédios’ democráticos da Constituição para prevenir isso”, disse ele ao jornalista André Guilherme Vieira. Jugmann não descarta, porém, a “figura horripilante de uma guerra civil, de um conflito armado entre brasileiros”. Bem, neste caso o que fariam as Forças Armadas? Recolher-se-iam aos bivaques?

Hegemonia como meta

Do outro lado, o PT no poder igualmente não aplacará os ânimos conflituosos. Embora não pleiteie abertamente a manutenção do poder à força, o partido tem tendências hegemônicas e disposição para, por exemplo, regulamentar a mídia, eufemismo para censurar jornalistas, passo decisivo para fragilizar a democracia.

Além disso, o apoio do petismo à Cuba, Venezuela e Nicarágua sugere, no mínimo, uma flexibilização do conceito de democracia. Noves fora a corrupção recorde, como sentenciada pela Justiça com base no Mensalão e na Lava-Jato. Aliás, outra característica comum a bolsonaristas e petistas. Ambos lutam, aliados ao Centrão, para detonar a Lava-Jato, primeira operação policial no Brasil que encarcerou corruptos ricos, brancos e poderosos.

Mas, para além do que cada um representa, há sequazes dos dois lados. Eles se retroalimentam. Quem conhece futebol sabe da rivalidade no greNal. A vitória de Internacional ou Grêmio no Campeonato Gaúcho provoca mais animosidade, mas a conquista do título por qualquer outro clube nativo, não.

No plano político nacional, as consequências vão muito além das futebolísticas. Comum nas famílias gaúchas, a convivência pacífica ou respeitosa entre colorados e gremistas não é possível entre bolsonaristas e petistas. A raiva só cresce a cada novo post, a cada meme recebido, a cada tweet provocativo.

Moderado desconhecido

Para fugir dos botocudos, Marina admite apoiar Ciro Gomes. Exibindo-se como alternativa, o ex-governador tenta se manter equidistante dos dois lados belicosos. Dando como certo que Bolsonaro estará no segundo turno em 2022, Ciro definiu sua missão. “A minha tarefa é necessariamente derrotar o PT no primeiro turno”, sentenciou ele em entrevista ao jornalista Joelmir Tavares.

Ciro não é neófito, tampouco parece fazer parte da chamada esquerda fundamentalista. Seu pavio curto, porém, dificultará a estabilidade política num país dividido. Sua beligerância verbal é traço de personalidade que dificilmente será alterado depois de 63 anos de vida.

De qualquer jeito, o gesto de Marina Silva é significativo. Trata-se de mais uma figura nacional que reconhece a nocividade do extremismo representado pelo embate bolsonarismo x petismo.

Tempos de confrontos, o otimismo para por aqui. Afinal, o Brasil tem pouco tempo para encontrar o moderado desconhecido. Alguém que seja distante dos extremos e consiga restabelecer o diálogo e um pouco de bom senso à nação. Por enquanto, sonho de um longo e agonizante inverno pandêmico.

* Itamar Garcez é jornalista