Foto: Adam Schultz / Campanha Joe Biden

Dia 20 de janeiro será mais do que um dia histórico para os Estados Unidos, será uma data emblemática para que velhos problemas possam ganhar novas soluções. Ao menos é isso que uma grande parcela dos americanos espera (incluindo muitos dos que não votaram em Joe Biden para Presidente). O ano de 2021 começou com a mesma intensidade que o ano de 2020. A invasão do Capitólio no dia 6 de janeiro trouxe desafios não só para a democracia americana, como também para Biden na aplicação de uma narrativa global de que os EUA ainda devem liderar as “democracias-livres”.

Historicamente, o carro-chefe da abordagem americana foram seus valores democráticos e a representação de um modelo de governo e economia abertos ao mundo, aos povos e ainda inclusivo. Concordando ou não, essa percepção americana gerou aliados, aliados ressentidos, inimigos dissimulados e inimigos puros. As atitudes do Presidente Donald Trump, desde a derrota eleitoral em novembro, culminando no episódio lamentável de 6 de janeiro, prejudicaram a percepção que alguns países tinham em relação à resiliência e à solidez dos valores democráticos americanos.

Percepção é bem diferente de realidade. As instituições americanas seguem sólidas, assim como sua democracia. Por mais que a polarização tenha se acentuado e contaminado o processo de combate à covid-19, nos EUA as regras seguem sendo regras.

Biden sabe que não basta ser. Tem que ser e parecer também. Internacionalmente, os EUA disputam mercado, acordos, influência e hegemonia com a China. Enquanto o carro-chefe americano é a democracia e o que ela representa — seguido da sua capacidade de inovação, cultura pop, setor privado, economia robusta etc., a China traz poder desproporcional de financiamento, linhas de crédito, um mercado voraz e uma produção a custo exageradamente baixo. Nesse embate, justamente a manutenção dos valores democráticos (que foram perceptivamente abalados com a invasão do Capitólio), representa o maior ponto de orgulho e de diferenciação para os EUA defronte ao mundo.

Após a sua posse, Biden cuidará especificamente dos temas mais urgentes: vacinação em massa (paralelamente à expansão de medidas de contenção), revitalização econômica, com destaque na recuperação da base social (estímulos, apoio a pequenas empresas e comércios, isenções tributárias focalizadas e, mais tarde, aumento de impostos em determinados setores), reformulação da imagem dos EUA perante aliados (valores democráticos, compromisso com multilateralidade, cooperação aberta e cooperação submersa), pressão na China focando em Direitos Humanos e Propriedade Intelectual, com respostas coletivas (junto com aliados) em relação à Taiwan e ao Mar do Sul da China.

Parece pouco, mas não é. A China disputa mercado com os EUA levando a vantagem de ter grande parte das decisões operacionais sendo tomadas pelo Partido. Já nos EUA, as decisões são das empresas com apoio, incentivo ou flexibilização regulatória do Governo. Isso faz com que o fluxo de investimentos chinês seja mais rápido do que o americano. Para isso, o papel do DFC, órgão de fomento americano, será decisivo para tentar equilibrar a disputa por ofertas de linhas de crédito em alguns locais. Mesmo assim, tudo isso volta para o ponto inicial: Biden precisará transmitir credibilidade aos aliados preferenciais – Reino Unido, Canadá, União Europeia, Austrália, Índia, Japão e Coreia do Sul – para que, no coletivo, as pressões na China surtam efeito.

O investidor americano, principalmente os clientes com quem tenho conversado exaustivamente nos últimos dias, observam mais do que nunca a importância da análise geopolítica no mundo de hoje. A Índia se tornou um alvo de observação e recepção de investimentos para fundos que não olhavam para aquela parte do mundo. O potencial agrícola indiano e a possibilidade de expansão ainda maior da potência farmacêutica que é o país colaboram para isso. Olham novamente para o minério australiano, já que o embate comercial dos EUA (e aliados) com os chineses pode esfriar, abrindo espaço novamente para a venda dessa commodity na China. Importante ressaltar que um esfriamento na disputa comercial entre EUA e China não representa, de forma alguma, um arrefecimento do embate em outras (e mais importantes) áreas de tensões.

O Brasil nunca é interessante como um todo ou desinteressante como um todo. A regra principal é: passe longe de tudo aquilo que o governo possa influenciar. No entanto, mesmo em pontos em que o governo tem uma influência, o mercado acaba por repetir alguns mantras clássicos: reformas, privatizações. Mas também se assustam com a falta de controle em cima do básico: “quando haverá vacinação? Que m** aconteceu em Manaus? Como isso é possível?” são as novas perguntas que minam a capacidade de convencimento.

Texto publicado no Estadão dia 17/1/2021

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Thiago de Aragão e sociólogo, Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Johns Hopkins, Pesquisador Associado do Instituto Frances de Relações Internacionais e Estratégicas e Diretor de Estrategia da Arko Advice. Nos últimos anos, Thiago liderou projetos estratégicos para vários clientes nacionais e internacionais. Ao longo dos últimos anos, palestrou em vários países, por meio de convites de governos, universidades e fóruns. Recebeu em 2013 a medalha de honra ao mérito do Governador-Geral do Canada e em 2016 foi escolhido como Jovem Liderança do Ano pelo Governo da Franca.