Foto: Govesp

A decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em autorizar o uso emergencial da vacina Coronavac contra a Covid-19 representa uma vitória política parcial para o governador de São Paulo (SP), João Doria (PSDB), no que diz respeito a sua narrativa.

Apesar das críticas que sofreu por ter, no início da pandemia, adotado medidas restritivas – o que gerou forte reação negativa junto ao setor privado – e também por sua aposta na Coronavac, Doria se fortaleceu politicamente.

Em meio a uma intensa disputa política com o governo Jair Bolsonaro, João Doria consolidou na opinião pública a imagem de ter sido o responsável por garantir a vinda da vacina – já que a Coronavac está sendo produzida pelo Instituto Butantan, de SP, em parceria com o laboratório Sinovac, da China – para o Brasil.

Mais do que isso, as imagens da primeira brasileira vacinada – a enfermeira Mônica Calazans, mulher negra que mora no extremo da Zona Leste da capital paulista, periferia de SP – ao lado de Doria garantiram ao governador o protagonismo no tema da vacinação contra a Covid-19, vencendo momentaneamente a disputa com o governo federal.

Logo após a vacinação, João Doria fez um discurso recheado de simbologia. Sua manifestação seguiu o script de seus pronunciamentos anteriores, ou seja, Doria aparece ao lado de médicos e cientistas com grande reputação, dando as coletivas um viés técnico.

Em meio ao discurso científico, o governador também politiza a narrativa. Nesse domingo (17), por exemplo, João Doria usou frases calibradas como, por exemplo: “Hoje é o dia V. É o dia da vacina, é o dia da verdade, é o dia da vitória, é o dia da vida”.

Também enviou recados a Jair Bolsonaro afirmando que ontem foi “o triunfo da vida contra os negacionistas, contra aqueles que preferem o cheiro da morte, ao invés do valor e da alegria da vida”. Atacou Bolsonaro também quando declarou: “E daí?, disse um brasileiro. Pressa para quê, disse outro brasileiro. Toma cloroquina que passa, disse um líder do País. A vacina é uma lição para vocês, autoritários que desprezam a vida”.

Os ataques de Doria não ficaram sem resposta. Praticamente de forma simultânea ao discurso do governador, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou, durante entrevista coletiva em que anunciou o início da vacinação no país para a próxima quarta-feira (20) que “o Ministério da Saúde tem em mãos as vacinas tanto do Butantã quanto da AstraZeneca. Nós poderíamos, num ato simbólico ou numa jogada de marketing, iniciar a primeira dose em uma pessoa. Mas em respeito a todos os governadores, prefeitos e todos os brasileiros, o Ministério da Saúde não fará isso”.

Embora a tentativa do governo Bolsonaro em descredibilizar a vacinação iniciada por João Doria rotulando o ato como uma peça de marketing, o fato é que a imunização no Brasil iniciou através de Doria numa transmissão ao vivo pelos principais canais de TV e com grande repercussão nas redes sociais.

O Instituto Butantan, por sua vez, lançou uma campanha publicitária com objetivo de quebrar resistências à vacina. O imunizante da Coronavac é apresentado como “a vacina do Butantan”, numa clara jogada estratégica para desconstruir a narrativa da “vacina chinesa” construída pelos setores mais conservadores. O vídeo, que está circulando nas redes sociais, tem um apelo a emoção, esperança e aposta na narrativa da união: “É a vacina que une todos nós em torno de um mesmo objetivo: acabar com a Covid-19”, diz um trecho do vídeo. A campanha também nacionaliza a mensagem ao apostar no slogan “É do Butantan, é de São Paulo é do Brasil”.

A federalização do debate da vacina também pode ser percebido na decisão de João Doria em direcionar 50 mil vacinas para Manaus antes de enviá-las ao Ministério da Saúde. Todos esses movimentos postam, por ora, Doria como o principal antagonista do bolsonarismo no tabuleiro.