Foto: Léo Rodrigues/Agência Brasil

Mesmo com as vitórias de Edmilson Rodrigues (PSOL), em Belém, e de José Sarto (PDT), em Fortaleza, a partir da formação de uma frente de esquerda (PT, PCdoB, PDT, PSB, Rede, PCB e UP) no segundo turno – e com o bom desempenho de Guilherme Boulos (PSOL), em São Paulo, e de Manuela D’Ávila (PCdoB), em Porto Alegre –, o balanço das eleições municipais foi ruim para as esquerdas.

Em Recife, por exemplo, a disputa entre os primos João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT) rachou a esquerda. O embate João X Marília foi tão intenso que deixou fissuras para uma eventual frente de esquerda local em 2022. Sem falar no fato que o PT não elegeu nenhum prefeito de capital.

No PT, há questionamentos sobre a liderança exercida pelo ex-presidente Lula e pela corrente Construindo um Novo Brasil (CNB), que comanda a legenda desde 1995. Presidente do PT com o aval de Lula, a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR) tem sido bastante criticada. Vendo a hegemonia do PT no campo da esquerda ameaçada, lideranças começam a se mexer tendo em vista a sucessão presidencial de 2022.

O primeiro movimento partiu do ex-ministro Ciro Gomes (PDT). Ao fazer uma avaliação das eleições municipais, ele afirmou, em entrevista ao jornalista José Luiz Datena, que “o brasileiro mandou brigar lá fora o lulopetismo e o bolsonarismo boçal”. Ciro também criticou o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), por ter ido votar no segundo turno vestido com uma camiseta com os dizeres “Lula Livre”.

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A manifestação de Ciro sugere que ele joga pensando na construção de uma frente mais ampla. Não à toa o PDT indicou a vice do prefeito eleito de Salvador, Bruno Reis (DEM), assim como abriu recentemente diálogo com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Mais: no segundo turno em São Luís, o PDT, mesmo fazendo parte da base de Dino, apoiou Eduardo Braide (Podemos), que é adversário do PCdoB no Maranhão. Outro aspecto é que, ao atacar Flávio Dino, Ciro tenta demarcar diferenças com um potencial candidato de esquerda na disputa sucessória em 2022.

Também cotado para concorrer à Presidência, Flávio Dino se posicionou nesse embate. Em entrevista à revista Carta Capital, minimizou as críticas de Ciro e afirmou que não há como pensar numa frente de esquerda sem o PT. Para ele, o PT seria “a coluna vertebral” de uma frente de esquerda e não há como dispensar a liderança de Lula no processo.

Também o PSOL está no jogo. O presidente do partido, Juliano Medeiros, disse a O Globo que Guilherme Boulos pode concorrer para o que quiser em 2022. E Boulos tem sinalizado que poderá ser, por exemplo, uma opção ao Planalto daqui a dois anos. À Folha, afirmou que “vai atuar para que a esquerda se una não só na véspera da eleição”.

Além dos sinais emitidos por Ciro, Flávio Dino e Boulos, existem os interesses do PT nessa complexa equação. Apesar das dificuldades de imagem que enfrenta hoje, o PT sabe que a formação de uma frente de esquerda passa, necessariamente, pelo partido. Apesar do crescimento registrado por PDT, PSB e PSOL nas eleições municipais, nenhuma dessas siglas tem, por exemplo, a estrutura nacional que o PT possui.

Vale lembrar que, mesmo que não seja candidato, o ex-presidente Lula ainda é um forte cabo eleitoral. Graças a ele, Fernando Haddad (PT) conseguiu chegar ao segundo turno contra Jair Bolsonaro (então PSL) em 2018.

A tendência é que PDT e PSB, aliados em Recife e em diversas capitais, estejam juntos em torno do Projeto Ciro 2022. O PT, como ocorre desde 1989, deverá ter candidato próprio. O PCdoB sonha com a candidatura de Flávio Dino. E o PSOL, a partir do bom desempenho de Boulos em São Paulo nas eleições para prefeito, também passou a sonhar em liderar o campo progressista.

Embora sejam menos estruturados que PT e PDT, por exemplo, o PCdoB e o PSOL possuem algumas vantagens em relação aos demais partidos de esquerda. Tanto Flávio Dino quanto Boulos são da chamada “nova geração”. Além disso, Dino realiza um governo de amplitude no Maranhão, contando com forças que ultrapassam os limites da esquerda. Já Boulos, mesmo tendo sido derrotado em São Paulo, deu exemplo de como “falar para fora da bolha”, assim como Manuela D’Ávila em Porto Alegre.

Os movimentos pós-eleição sugerem que ainda há muitos desafios para a efetivação dessa frente. Hoje, o mais provável continua sendo a divisão. Principalmente pela falta de rumo nas esquerdas.


*Análise Arko – Esta coluna é dedicada a notas de análise do cenário político produzidas por especialistas da Arko Advice. Tanto as avaliações como as informações exclusivas são enviadas primeiro aos assinantes. www.arkoadvice.com.br